Mauc 60 anos

Capítulo Especial 2021-2022

MUSEU É O MUNDO É A EXPERIÊNCIA COTIDIANA

Ante o olhar terno da Virgem do Rosário de Bartolomé Esteban Murillo, o magnético jogo de luz e sombra das pinturas de Diego Rodríguez de Silva y Velázquez e a pungente religiosidade de EI Greco no Museu del Prado em Madrid, Antônio Martins Filho (1904-2002) silenciou. O ano era 1949. Então presidente da Embaixada Acadêmica Clóvis Beviláqua, integrada de estudantes da Faculdade de Direito, o cratense se demorou em galerias na Espanha e na França em sua primeira viagem ao Velho Mundo, embevecido pelas obras de arte outrora ilustradas apenas em catálogos e revistas que folheava curioso.

Em Paris, o grupo foi acrescido de um membro ad hoc: o pintor fortalezense Antônio Bandeira. Anos depois, em 1952, o jurista retornou à Europa e visitou os mais variados museus italianos — os de Florença, Milão, Gênova… Martins Filho voltou ao Brasil com o corpo vibrando em todas as frequências possíveis, instigado por dois desejos que precisavam de carona para a existencialização: fundar uma universidade cearense e criar um museu para a sedimentação da cultura de um povo.

Antônio Martins Filho, reitor pro tempore da Universidade Estadual do Ceará (Uece), é considerado o "Reitor dos Reitores". (Foto: Alcides Freire, em 04/01/1989)
  Antônio Martins Filho, reitor pro tempore da Universidade Estadual do Ceará (Uece), é considerado o “Reitor dos Reitores”. (Foto: Alcides Freire, em 04/01/1989)

 

A Universidade Federal do Ceará (UFC) — inicialmente, Universidade do Ceará — e o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc) nasceram num mesmo fôlego: ainda na década de 1940, Martins Filho protagonizou o movimento pela implantação universitária no Estado. Primeiro reitor da UFC, fundada ao 16 de dezembro de 1954, o intelectual forjou a construção do Mauc como ourives que esculpe delicada joia. Em diálogo com os pintores Heloysa Juaçaba (1926-2013), ZenonBarreto (1918-2002) e Antônio Bandeira (1922-1967), o reitor convidou o artista maranhense Floriano Teixeira (1923-2000) para integrar a equipe da UFC como desenhista e assessor de arte.

Teixeira atuou, sobretudo, como pesquisador — percorreu diferentes regiões do Nordeste brasileiro e coletou objetos como ex-votos e peças de arte sacra, além de telas de artistas plásticos do Ceará, posteriormente incorporados ao acervo museológico. No dia 25 de junho de 1961, a ideia ganhou corpo e o Mauc foi inaugurado.

Primeiro museu de arte do estado do Ceará, o Mauc ergue-se em pleno azul no cruzamento das avenidas da Universidade e Treze de Maio. “Destinei um dos imóveis próximos à Reitoria para a sede do Museu e nele foram feitas as adaptações estritamente necessárias, para que pudéssemos instalar oficialmente o Museu de Arte”, recordou Martins Filho na obra memorialística “O outro lado da História”, de 1983. Perante os jugos críticos dos opositores do reitor, o museu seria mais um orçamento do intelectual “preocupado em esbanjar dinheiro do povo com o patrocínio de loucas iniciativas de ordem nitidamente cultural”, como descreveu no livro “Elogio aos Doutores e outras mensagens” (1995). “Mas, acontece que eu pensava diferentemente e, por sorte, estava falando no imperativo, como o principal responsável pela Universidade.” 

As cartografias alinhavadas por Floriano Teixeira em Pernambuco, Rio Grande do Norte, interior da Bahia, Cariri e Canindé ao longo de 17 dias o consagraram como primeiro diretor do Museu, ainda nos idos de 1961. “Excelente diretor artístico, mas um péssimo burocrata”, nas palavras de Martins Filho, Teixeira e outros artistas e intelectuais aprenderam a gerir o museu como o caminhante do poeta e espanhol Antonio Machado (1875-1939) nos versos “Proverbios y cantares XXIX”, em Campos de Castilla (1912), aprendeu a caminhar: “No hay camino,/ se hace camino al andar”. Entre notas de bonecos de feiras rasgadas e pequenas despesas, o Mauc se constituiu como organismo vivo e erigido a muitas mãos.

Ao número 2854 da Avenida da Universidade, no bairro Benfica, o Mauc inaugurou em Fortaleza a experiência museológica. Numa vitoriosa batalha contra as emissões dos automotivos e o burburinho inquieto dos estudantes que atravessam as ruas com a pressa, o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará repousa há 60 anos feito uma oração ao tempo. Como os museus do Louvre em Paris, Britânico em Londres, Nacional da China em Pequim, Metropolitan em Nova York ou Prado em Madri, o museu desejado por Martins Filho se converteu num museu da Cidade. Nas palavras do artista visual carioca Hélio Oiticica, “museu é o mundo; é a experiência cotidiana” — e o Mauc borda futuros com a linha do presente continuamente transmutado em memória.