Mauc 60 anos

Capítulo Especial 2021-2022

ACERVO: EMARANHADOS CRIATIVOS NUM MUNDO DE MATERIAIS

Fóssil, casca, espaço físsil: o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará foi instalado, em 1961, numa edificação onde até o ano anterior funcionava o Colégio Santa Cecília, no terreno de uma chácara que pertencera ao Coronel Pierre. No momento preciso da criação museológica, a edificação em dois pavimentos abrigava no piso superior as salas destinadas às exposições. Em 1965, entretanto, o Mauc ganhou e inaugurou sua nova sede nos domínios da UFC. O projeto original é do renomado arquiteto modernista José Neudson Braga (1935-), formado pela chamada Escola Carioca, produção que incorporou todas as premissas internacionais do Modernismo — ausência de ornamentos, linhas retas, funcionalista, janelas em fita e pilotis, a exemplo. 

Na fachada do Mauc, o painel “Jangadas”, de Zenon Barreto, é um convite a conhecer o Ceará Profundo e as terras além-mar: atualmente, o museu da UFC tem sob sua guarda um acervo de aproximadamente sete mil obras. Dentre o vasto conjunto museológico, a coleção de Arte Popular reúne 1.544 peças — matrizes e estampas de xilogravuras, esculturas em cerâmica e
madeira, ex-votos — e a de Artes Plásticas, 5.184 — pinturas, guaches, aquarelas, gravuras, desenhos, esculturas. As coleções do Mauc se mantêm alinhadas ao lema da Universidade Federal do Ceará: “O universal pelo regional”.

“O Museu de Arte começa a ser sonhado e imaginado muito antes da criação da própria universidade. Quando Martins Filho conheceu o Quartier Latin e os museus franceses, ficou muito encantado com essa potência cultural que os museus têm por natureza, mas também com essa potência educativa dos museus — não há como pensar em um museu sem pensar cultura e educação”, destaca a museóloga Graciele Siqueira, atual diretora do Mauc.

Onze anos antes da inauguração da UFC, a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP) foi criada em Fortaleza a partir do ainda anterior Centro Cultural de Belas Artes (CCBA). O Centro e a SCAP forjaram talentos como Antônio Bandeira, Heloysa Juaçaba, Zenon Barreto, além de Mário Baratta (1915-1983), Aldemir Martins (1922-2006), Barrica (1913-1993), Nice
Firmeza (1921-2013), Estrigas (1918-2014) e Jean-Pierre Chabloz (1910-1984).

Irmão do literato Fran Martins, membro da Academia Cearense de Letras e também fundador do Grupo Clã, Martins Filho manteve relações de confiança com artistas — principalmente os oriundos da SCAP, que estavam em plena atividade na segunda metade dos anos 1950. O período inicial do Mauc, portanto, é definido pela aquisição de grandes coleções como a de Raimundo Cela, Antônio Bandeira, Chico da Silva, Sérvulo Esmeraldo, Barrica, Arte Popular e Arte Estrangeira. Esta política de coleções estabelece para o museu uma postulação museográfica voltada para a criação de salas especiais destes artistas cearenses.

“A primeira obra comprada para o acervo da universidade foi ‘Rolando Para Terra’, de Raimundo Cela (óleo/tela–1946). Raimundo Cela tinha falecido em 1954. Em 1957, Martins Filho realiza no Salão Nobre da Reitor ia uma retrospectiva com as obras do pintor e compra este trabalho. Depois, compra com a viúva a coleção de pinturas, desenhos e gravuras. O reitor também compra as obras de Antônio Bandeira”, rememora Graciele Siqueira.

A aquisição de obras para o Museu de Arte da Universidade do Ceará ocorreu, portanto, por meio de duas modalidades: compra pela Reitoria ou doações feitas pelos autores das obras, ou por seus representantes legais, ou por pesquisadores da UFC — processo iniciado já na década de 1990. “Segundo o professor e pesquisador Gilmar de Carvalho (1949-2021), a coleção de xilogravuras do Mauc é a maior e mais importante do Brasil em uma instituição pública e com uma sala permanente em seu museu de arte. O Mauc adquiriu coleções que, hoje, são referência: Chico da Silva, Bandeira, Raimundo Cela, Sérvulo Esmeraldo…”, enumera a atual diretora da instituição. “Martins Filho não queria fazer só um museu de acumulações: ele tinha preocupação de preservar o regional, o nacional e o internacional, já que mandou comprar obras na Europa. O reitor investiu também na qualificação dos funcionários”, complementa a museóloga.

Em 1979, Aldemir Martins e o pintor Nilo Firmeza — mais conhecido como Estrigas — doaram à UFC um conjunto de obras provenientes do Minimuseu Firmeza que compõem uma exposição retrospectiva, aumentando significativamente o número de aquisições do Mauc. No mesmo período, o museu experimentou também uma expansão do acervo com obras de autores nacionais, com destaque para Carybé (1911-1997), Carlos Bastos (1925-2004) e Jenner Augusto (1924-2003). Por fim, o terceiro período de composição patrimonial tem relação direta com o envolvimento do museu com as áreas de produção de conhecimento institucionais nos campos da antropologia, semiótica, literatura e história.

“Historicamente a formação de uma coleção é fruto da vontade de um grande homem: o Museu Nacional de Belas Artes abriga parte da coleção que Dom João VI trouxe da Europa; o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, o MAC-USP, teve o seu acervo doado por Ciccillo Matarazzo, mecenas paulista, e sua mulher Yolanda Penteado; a Coleção Fundação Edson Queiroz, fruto da vontade do chanceler Airton Queiroz. A coleção do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará teve a sua formação também por meio da vontade de um homem, o reitor Antônio Martins Filho, e a ele todos os méritos. Assim a história se repete ao longo dos séculos, quase como uma ação comum. Cabe destacar a participação de Sérvulo Esmeraldo, a quem lhe foi confiada a aquisição de obras de artistas europeus para iniciar um núcleo de arte europeia — e Sérvulo foi preciso nas suas escolhas. Obras foram incorporadas à coleção de arte popular, os núcleos monográficos, com aquisições consistentes e doações relevantes”, ressalta o marchande galerista Max Perlingeiro.

Criador das galerias Pinakotheke Cultural, Multiarte e Pinakotheke São Paulo, Perlingeiro é perspicaz conhecedor do Mauc e seus ricos acervos. “Em 2014, tive o privilégio de ser contratado pela renomada empresa de consultoria e auditoria Ernst & Young para fazer um levantamento de todo o patrimônio artístico do Mauc. Trabalhamos durante mais de um ano e o resultado foi surpreendente para todos”, pontua. “A abertura da exposição de Bandeira no Mauc foi um acontecimento sem precedente: vieram críticos, jornalistas, historiadores do Rio de Janeiro e de São Paulo… E a coleção era extraordinária. Foi montada com um rigor museológico e inovador à época”, complementa.

O acervo arquivístico do Mauc conta com dois fundos documentais distintos: o acervo institucional do Museu de Arte da UFC e o acervo do artista Jean-Pierre Chabloz. O institucional é composto de relatórios anuais, correspondências, fotos, livro de assinaturas de visitantes, catálogos de exposições e documentações dos artistas que possuem salas individuais no espaço expositivo: Aldemir Martins, Antônio Bandeira, Chico da Silva, Descartes Gadelha e Raimundo Cela. Outras duas salas guardam a Coleção Cultura Popular e a Coleção Xilogravura.

A Coleção Aldemir Martins é constituída de pinturas, litogravuras, desenhos e esculturas que versam sobre a representação do “ser” brasileiro, da natureza e das origens nordestinas do artista nascido em Ingazeiras, distrito de Aurora (CE). Em suas obras, Aldemir inventou dos cangaceiros às rendeiras — e o influente representante do Modernismo brasileiro é considerado um dos nomes mais relevantes do cenário artístico cearense. A inauguração da Sala Aldemir Martins foi realizada no dia 18 de maio de 1979.

Marca da instalação do Museu de Arte da Universidade do Ceará, Antônio Bandeira possui um total de 40 obras no Mauc, o mais respeitado conjunto de acervo público do artista no País. Além da sua participação no exercício de formar o arquivo museológico, Bandeira entranhou a arte cearense na França: o pintor teve contato com grandes mestres do desenho, como Narbonne, e da gravura, como Galanis. Entre pinturas, desenhos, guaches e gravuras abstracionistas que integram a Coleção, destacam-se as obras “Cidade Queimada de Sol – Uma homenagem à Fortaleza”, “A Grande Cidade Vertical”, “Flora Azul” e o tríptico “Cidade em Festa”.

O estilo inconfundível de Chico da Silva (1910-1985) colore também uma sala individual no Mauc: nascido numa família humilde em Alto Tejo (AC), foi descoberto na década de 1940 pelo suíço Jean-Pierre Chabloz, que deparou-se com muros e paredes de casas desenhados na Praia Formosa pelo artista. Segundo Chabloz, o trabalho de Chico da Silva remete a lendas amazônicas, recordações da infância, ritos e práticas mágicas. Dentro do movimento artístico Naïf, o pintor consagrado no Ceará é considerado um “gênio primitivista” a nível nacional. O total de obras pertencentes ao Mauc soma, atualmente, 78 telas — dentre as quais, 12 quadros participaram da 33° Bienal de Veneza em 1966 e receberam o prêmio de “Menção Honrosa”.

O expressionista Descartes Gadelha, nascido na Fortaleza de 1943, é o único artista vivo que conserva uma coleção individual no Mauc. Doutor Honoris Causa da UFC, Descartes possui uma trajetória artística intimamente costurada ao museu universitário e realizou diversas exposições nos domínios do equipamento — “Canindé: Canaã Nordestina” em 1974; “De um alguém para outro alguém”, em 1990; e “Caldeirão de Fé”, em 2006, a exemplo. Pintor, desenhista, escultor, músico e griô do tradicional Maracatu Solar, o artista passeia em suas obras por bailarinos da noite, prostitutas do Centro, pessoas em situação de rua, catadores e catadoras de resíduos, entre outros sujeitos socialmente marginalizados. Outra importante criação do fortalezense sob a guarda da UFC é a representação de Iracema, que integra o Salão de Iracema na Casa de José de Alencar.

O sobralense Raimundo Cela (1890-1954), por fim, é celebrado por sua vasta obra que cartografa a terra e os tipos humanos regionais numa perspectiva estética formal. Pintor, desenhista e gravador, imortalizou em pinceladas pescadores, vaqueiros, artesãos, operários, jangadeiros… Com o maior acervo do artista no Ceará, o Mauc reúne mais de 70 criações na Coleção. As contribuições de Cela com a universidade, no entanto, são anteriores ao museu: em 1957, no período denominado pré-Mauc, o pintor participou de uma retrospectiva com Vicente Leite no Salão Nobre da Reitoria como parte do projeto artístico cultural da UFC.

O Mauc, em sua multiplicidade, abriga ainda o arquivo histórico de Jean-Pierre Chabloz (1910-1984). Nascido em Lausanne, na Suíça, o pintor, desenhista, crítico de arte, músico, professor e publicitário radicou-se no Brasil para fugir da guerra em 1940. Três anos após aportar no Rio de Janeiro, Chabloz foi convidado a trabalhar em Fortaleza na campanha da borracha. Na capital cearense, expôs no 1º Salão de Abril, participou da SCAP, incentivou o encontro entre artistas, promoveu exposições, palestras e recitais — o suíço, em outras palavras, foi um agitador do cenário local da cultura.

Doado ao Mauc, o fundo J. P. Chabloz compreende um conjunto de documentos pessoais referentes às atividades artísticas executadas pelo pintor na Europa — na década de 1930 — e no Brasil — entre as décadas de 1940 e 1980, de modo descontínuo. Entre os destaques do acervo, as atividades realizadas em Fortaleza durante nos anos 1940 registram as contribuições do artista para o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (Semta). Em 2016, este conjunto de obras recebeu o Selo da Unesco em seu Programa Memória do Mundo pela importância e relevância temática.

“Nós temos entre 15% a 20% do acervo exposto no Mauc atualmente, ou seja, cerca de 650 peças. Além das salas individuais, ressalto ainda as salas coletivas Os Fundadores e Arte Cearense. O acervo museológico do museu é composto por xilogravuras, matrizes de xilogravura, esculturas de barros, madeira, cerâmica, pinturas, desenhos, gravuras, guaches…”, especifica Graciele Siqueira. O Mauc contempla também a Biblioteca Floriano Teixeira, equipamento que mantém um acervo especializado em artes; e a Biblioteca Jean-Pierre Chabloz, formada por livros e revistas da biblioteca particular do artista. Nestes emaranhados criativos num mundo de materiais, um chamado: seguir os passos dos precursores e desbravar o Mauc.