Mauc 60 anos

Capítulo Especial 2021-2022

REINA AQUI O INSTANTE

A “Exposição Comemorativa da Instalação do Mauc” apresentou o museu universitário aos cearenses no dia 25 de junho de 1961. Em julho, mês posterior à inauguração, as atividades se consolidaram com a mostra “Bandeira” — recorte de óleos e os guaches do artista.  Nada melhor, para o Museu de Arte da Universidade do Ceará, do que iniciar suas atividades com uma exposição de Antônio Bandeira”, escreveu o literato Fran Martins à época. “Digo iniciar suas atividades porque acredito que o Mauc está convencido de que um museu não é um órgão estático, parado, depósito de quadros sem vida e sem calor. E assim, inaugurado há poucos dias, o mais jovem museu do Brasil já começa a procurar agitar a pacata cidade de Fortaleza. Nada melhor do que uma exposição de Bandeira para mostrar que o Museu de  Arte da Universidade do Ceará nasceu vivo e promete endiabrar-se”.

Pintor, gravador, escultor, cenógrafo e figurinista, o fortalezense José Tarcísio Ramos teceu sua trajetória artística junto ao Mauc. Aos 80 anos de vida e 60 de carreira, Zé Tarcísio acompanhou a consolidação do museu. “Eu conheci o Mauc no dia da inauguração — e, nesse dia, também tive a chance de conhecer o Antônio Bandeira. Imagina só: eu jovem, com o sonho de ser artista, ter essa possibilidade de assistir a inauguração do museu, da Concha Acústica… Fortaleza ganhava espaços culturais. Antônio Bandeira foi importantíssimo na minha vida. Ele me disse tanta coisa fundamental que, durante esses 60 anos de trabalho, é um eco que estou sempre ouvindo através da lembrança. Ele me disse que ‘tem que gostar, tem que acreditar na arte. Tem que ouvir mais que falar e ser teimoso’. Essa ‘teimosia’ é persistência, é insistência, é o que eu faço até hoje. Toda exposição eu me preparo como se fosse a primeira”, sublinha.

Zé Tarcísio frequentou o Curso Livre de Pintura na Escola Nacional de Belas Artes (RJ) aos 20 anos. Em 1971, foi comissionado por Walmir Ayala para ser um dos representantes brasileiros na VII Bienal de Paris. Três anos depois, em 1974, expôs no XXIII Salão Nacional de Arte Moderna e ganhou o prêmio nacional de uma viagem ao exterior. Na década de 1980, de volta ao País, criou seu ateliê. Seus 30 anos de atividades artísticas — incluindo uma temporada na Europa e em Cuba — foram homenageados pelo Mauc nos anos 1990. “É impossível imaginar a emoção que eu tive naquele espaço… Eu tenho um grande respeito pelo Mauc, esse espaço tem preciosidades que contam muito da nossa história”, relembra o artista. “O Museu da Universidade é uma coisa muito querida, é uma coisa nossa, propriedade da comunidade. Nós temos que ter carinho pelo Mauc, tem tanta coisa linda, tanta obra de arte! É um passeio  fantástico na Cidade. Eu não vejo programação na Cidade para ir a museus e galerias. Essa é a minha reclamação da Cidade em si com  essa joia que é o Museu da Universidade”, complementa.

“O Mauc é um patrimônio nosso. Muitas vezes, as pessoas pensam que as instituições são do Governo — mas não são, são nossas. O  Governo tem responsabilidades, obrigações com políticas públicas, mas são espaços nossos”, defende Zé Tarcísio. “O museu da universidade sempre fomentou formação. Quase todos os artistas que vieram depois do Mauc tiveram essa experiência. Arte é nossa  identidade, nossa cultura, deveria vir desde o beabá — mas é importante que essa experiência seja muito além da elite, seja do povo. O museu está pronto, o que está faltando é a nossa persistência para as coisas acontecerem.”

No reino do instante, a arte se eterniza entre os dedos firmes de Zé Tarcísio. “Eu escolhi uma profissão em que eu desenho, entro no desenho, me penso no desenho e me acho também. É um processo de vida — há 60 anos é assim. Eu sou rico, eu sou milionário: tenho uma profissão livre, uma profissão em que eu sou eu. É como amizade, é uma coisa rara… Eu tenho a arte, eu tenho muitos amigos; e isso tudo vale uma fortuna”, acredita.

Sérvulo Esmeraldo, Francisco Sousa, Andrea Kulpas, Marcos López, Clementina Duarte, Cristina Pagnoncelli, Elaine Ramos, Carybé, Diva Elena Buss, Janete Costa, Marianne Peretti, Mirthes Bernardes, Renata Rubim, Estrigas, Zuzu Angel, Azuhli, Espedito Seleiro, Barrica… Em 60 anos de história, as paredes do Mauc testemunhara m os mais diversos trabalhos de gerações de artistas locais, nacionais e estrangeiros. O reconhecimento e a divulgação da arte cearense, no entanto, sempre foram faróis para o museu universitário.

“Minha primeira exposição foi no Mauc”, rememora o artista visual Roberto Galvão. Nascido na capital cearense em 1950, o autodidata iniciou – se na pintura em 1964. Na década de 1970, Galvão adentrou nas pesquisas sobre cultura popular e as possibilidades plásticas dos metais e do mármore. Primeira mulher a assumir a direção do Mauc, Zuleide Martins de Menezes — filha de Martins Filho, esteve à frente da instituição de 1965 a 1985, contribuindo para a consolidação do museu e do fortalecimento de sua atuação — apostou no então jovem artista. “O Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, sempre aberto aos novos talentos, apresenta desta vez um dos destacados artistas da sua geração: Roberto Galvão. Em um mundo cheio de arraias idas, Roberto lança seu talento de pintor, ao mesmo tempo em que transforma blocos de mármore em obras de arte. Da segurança, da pesquisa incessante, de um trabalho consciente resulta uma  mostra cheia de beleza como esta que aqui está”, registrou a diretora. A mostra foi inaugurada em 22 de agosto de 1974.

Desde os anos 1970, com “As arraias” — as pipas nordestinas apresentadas na Bienal de Arte de São Paulo e expostas posteriormente no Mauc —, Galvão tem realizado tanto exposições individuais quanto mostras coletivas no museu da UFC. “Eu estudava Arquitetura na  UFC, então sempre acompanhei a agitação no Mauc. Quando eu decidi ser artista, abandonei meu interesse pelo curso de Arquitetura e a relação com o Mauc ficou ainda mais próxima quando me afastei da faculdade. Eu fiz muitas exposições no museu, participei de muitas coletivas”, recupera. “O museu tem dezenas de obras minhas, doações que hoje são conhecidas do público graças ao que mais me encanta no Mauc: o caráter pedagógico.”

“Tanto o acervo quanto as mostras que o Mauc tem montado têm uma preocupação educativa — e eu creio que esse é o caminho correto. Este é meu interesse em doar obras para o Mauc: ter uma obra no museu da universidade é muito bom para um artista, porque sabe que os trabalhos serão inseridos em um contexto pedagógico. Na minha visão, a coisa mais importante de um equipamento público é essa função. Para mim, o Mauc é uma sala de aula onde o público vê arte e aprende”, defende Galvão. “O Mauc tem dificuldades? Sim, mas é o que temos de melhor no Ceará”.

Roberto Galvão inaugurou a exposição individual “Mato Branco” no Mauc em 2019. Originário do tupi, o título significa “caatinga” — segundo o artista, a inspiração para a série nasceu na observação da paisagem sertaneja na estrada entre  Sobral e Fortaleza ao longo de 10 anos. As mais de 200 obras que integraram a mostra reuniram xilogravura, água-forte, linóleo, gravura em metal e múltiplas técnicas, como lápis de cor, aquarela e tinta guache. “Nesta década de observação da paisagem ora seca, ora verde, eu pensei: por que temos a preocupação de pintarmos os verdes, muitas vez es raros no Ceará? Por que não ver beleza e pintar a paisagem árida, que é também nossa realidade?”.

Como modelo colaborativo, composto por ciclos diversos de participação e envolvimento, o Mauc experimenta abundantes olhares sobre as práticas artísticas. A direção de Zuleide Martins de Menezes foi marcada pela publicação do Catálogo do Mauc, a formação das coleções, as ações de intercâmbio, o surgimento das salas especiais de artistas, as exposições realizadas e o destaque ao lugar do museu na sociedade cearense. Em 1987, o Mauc ganhou a direção do artista visual e arquiteto Pedro Eymar Barbosa Costa, professor do curso de Arquitetura da UFC e especialista em Conservação e Restauração em Bens Culturais pela Universidade Federal de Minas Gerais, Pedro Eymar conectou a geração scapiana a novos momentos históricos e desafios da instituição.

Pedro Eymar assumiu a direção do Mauc no período de abertura política após a ditadura militar e realizou reconhecido trabalho ao manter a instituição funcionando num período político nebuloso. Em entrevista ao O POVO em 2021, o ex-diretor apontou que “manter um acervo com a qualidade de referência cultural tão rica impõe uma batalha incansável”. Entre as adversidades da gestão do  equipamento, o artista e arquiteto enfrentou “reformas cada uma com sua natureza específica e tendo em comum a impossibilidade de serem realizadas de forma simultânea” e a necessidade de “modernizar-se apesar da privação das dotações orçamentárias”.

Nos 30 anos do Mauc, celebrados em 1991, o professor, escritor, jornalista e publicitário Gilmar de Carvalho (1949-2021) analisou a trajetória do museu no Vida & Arte, caderno cultural do O POVO, em 13 de agosto: “Reparos podem e devem ser feitos, mas o Mauc reflete uma coerência com as políticas para ele adotadas. Seu acervo denota uma recolha dos momentos mais instigantes da produção artística na constituição de um ‘corpus’ do que se considera tradição. A ideia de processo é bastante clara. A acumulação da herança é ponto de partida para a superação e a ruptura. É nessa perspectiva que as tendências estéticas avançam. A função da arte neste contexto ganha novas significações. (…) O Mauc é jovem nestes trinta anos. Porque abriu, literalmente, suas portas para um público também jovem. E apostou na avidez destes novos segmentos pelas ousadias estéticas, pelo peso da tradição e pela importância da informação”.

Gilmar, um homem visitador e conhecedor de cada município do Ceará Profundo, enfrentou “o pedregulho, a areia, a extrema beleza e a profunda miséria” . Mestre encantado pelos saberes da terra, Gilmar presenteou o Mauc com um mergulho nas tradições, bebeu do nascedouro da arte cearense. Hoje, o tempo dobrou-se — e o sangue dos tesouros da nossa cultura irrigam o Museu de Arte da UFC.