70 anos da Fiec: Uma Efeméride na Pandemia

70 anos da Fiec: Uma Efeméride na Pandemia

Especial

Ciclos da Industrialização Cearense

Crédito: KARLSON GRACIE

desenvolvimento da indústria cearense acontece em ciclos protagonizados por alguns segmentos em diferentes regiões do Estado. Mesmo com o surgimento de novas atividades, as anteriores não deixam de existir. Enquanto a Inglaterra vivia a Revolução Industrial no século XVIII, o Brasil, ainda colônia de Portugal, tinha uma economia à base da exploração mineratória, e o Ceará, criação de gado para atender ao mercado interno. 

 

COURO – CHARQUEADA 

No século XVIII, as cidades de Aracati e Acaraú já contavam com uma atividade pré-industrial com a pecuária. Em paralelo, oficinas eram abertas para beneficiamento do couro, dos chifres e da banha dos animais na fabricação de itens como selas, arreios, botas, gibões, chapéus, malas e baús, além da produção de carne-seca, popularmente conhecida como charque.

A Cia. Cearense de Curtumes, criada em 6 de junho de 1891, foi a primeira do segmento registrada no Estado. Era localizada no bairro Jacarecanga, em Fortaleza. 

 

CANA-DE-AÇÚCAR – ENGENHOS E ÁLCOOL 

O cultivo de cana-de-açúcar proporcionou o surgimento dos engenhos dedicados à fabricação de açúcar, rapadura e aguardente. No século XIX, a produção ocupava o Cariri e as serras úmidas como Ipu e Ibiapaba. Já no litoral, os destaques eram Fortaleza, Aquiraz e Cascavel. Em 1860, o Ceará tinha 1.252 engenhos que demandavam alguns instrumentos e máquinas, além de propiciar à população alternativas à agricultura, à vaquejada e ao comércio. 

Instrumentos de trabalho mais modernos, como máquinas de espremer mandioca para a melhoria da produção de farinha, só desembarcaram no Ceará em meados do século XIX. 

Na década de 1970, o Ceará vive outro ciclo volumoso com a cana-de-açúcar. Dessa vez, com a crise do petróleo, o Governo Federal estimulava o cultivo para substituição da gasolina por álcool. Nesta fase, destacaram-se os municípios de Baturité, Redenção, Cascavel, Missão Velha, Ibiapina, Ubajara e Barbalha. 

 

ALGODÃO – “OURO BRANCO” 

A aridez do Ceará era um desafio para as culturas agrícolas, mas, adaptado, o algodão se apresentava como “ouro branco”. Além do cultivo, a produção de tecidos e fios aqueceu a economia. As indústrias de tecido despontavam. Em 1884, foi inaugurada em Fortaleza a Fábrica de Tecidos Progresso, de Thomás Pompeu de Souza Brasil e Antônio Pinto Nogueira Acioly, marco dessa fase.

Em 1891, surge na Capital, instalada no Boulevard do Imperador (Av. do Imperador), a Cia. Fabril de Meias, presidida por José Albano Filho, que tinha como concorrente o Colégio da Imaculada Conceição, que também mantinha a atividade. 

Nas atividades de fiação e tecelagem, o destaque era a fábrica Pompeu & Gurjão, em Fortaleza (Rua Santa Isabel), e as fábricas Popular Aracatiense e Sobralense, em Aracati e Sobral, respectivamente.

 

FARMACÊUTICO 

Uma das atividades mais inovadoras foi a de farmácia. Inicialmente aproveitando-se do conhecimento das propriedades da natureza. O embrião é demarcado pelo cirurgião Francisco José de Matos, fabricante das pílulas vegetais depurativas — Pílula de Matos. Na década de 1940 destacavam-se também as Gotas Amargas de Artur de Carvalho e o sabão líquido Aseptol. 

Em junho de 2018, o Ceará inaugurou o Polo Industrial e Tecnológico da Saúde (PITS) com instalação de unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no município do Eusébio. A instituição, referência internacional em pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico para a saúde, mantém três grupos de pesquisa na unidade Ceará: Saúde da Família, Saúde e Ambiente e Biotecnologia.

No mesmo ano, também foi instalado o Polo Industrial Químico, na cidade de Guaiúba. Os polos ligados à saúde são destaque no Estado. O Ceará é referência na produção de nutrição parental (soro), sendo responsável por um terço do que é vendido no País. 

 

TIPOGRAFIA 

Com o surgimento das livrarias e o avanço intelectual proporcionado pelo Liceu do Ceará, a tipografia tem um crescimento de demanda. Em 1895, em Fortaleza, eram oito tipografias industrializadas. 

A tipografia do jornal “O Cearense” pertencia ao senador Thomás Pompeu de Souza Brasil Netto, que se tornou segundo presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará, em 1962. 

 

METALURGIA

Em 1856, o Governo Imperial fornece impulso econômico para a indústria nacional. Até 1870 há então um crescimento na produção fabril. Destaque do período é a instalação da Fundição Cearense, a primeira metalurgia do Ceará, em agosto de 1868. 

O governo Virgílio Távora já pretendia a instalação de uma siderúrgica em 1979, mas somente em 2016 um empreendimento do tipo começou a operar no Ceará. A Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) instalada na Zona de Processamento de Exportação (ZPE), do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, com capacidade produtiva de três milhões de toneladas de placas de aço por ano.

A cidade de Tabuleiro do Norte conta com o Polo Multissetorial Metalmecânico do Vale do Jaguaribe, inaugurado em 2018 pelo Governo do Estado. 

 

RECURSOS NATURAIS

No início do século XXI, o perfil industrial do Ceará dá destaque à relação entre recursos naturais e tecnologia. Integrando a produção às atividades que se conectam de algum modo em suas explorações. Os recursos naturais, como localização geográfica, sol, vento e mar, se destacam como atributos competitivos da economia.

A usina eólica em Camocim, a extração de granito em Sobral, a usina solar em Tauá, são exemplos dessa integração, junto com o hub tecnológico, com 14 cabos submarinos de fibra óptica que interligam o Brasil com África, Europa, América do Norte, América Central e América do Sul. O Governo do Ceará estima que até o final de 2021 sejam 18 cabos.

 

CIC – ENTRE O ASSOCIATIVISMO E A POLÍTICA

O senador Tasso Jereissati presidiu o CIC na fase de retomada da entidade, no começo dos anos 1980. (Foto: Aurélio Alves | O POVO)

Criado em 1919, antes do surgimento da Fiec, o Centro Industrial do Ceará (CIC) foi palco de debates políticos e tem uma história ora de integração, ora de independência com a entidade.

A intenção era integrar uma nova geração ao movimento industrial do Ceará e gerar compromisso com as questões do setor. Foi movido nessa direção que o então presidente da Fiec, José Flávio Costa Lima, alterou o estatuto permitindo que a Presidência do CIC fosse diferente da Presidência da Federação. Nessas condições, entregou a responsabilidade do CIC, a partir de 1978, aos então jovens empresários Tasso Jereissati, Beni Veras, Amarílio Macedo, Sergio Machado e Assis Machado. 

O grupo, mais tarde batizado de Geração Mudancista (1979-1986), tem uma postura diferente de atuação e se aproxima das questões políticas, como a defesa da redemocratização e o desenvolvimento da economia.

Durante o período, o CIC manteve uma agenda de discussão em que projetava o Ceará no contexto regional e nacional. Os eventos realizados na entidade tinham convidados como Dom Helder Câmara, Leonel Brizola e Lula. Na pauta, a necessidade de rompimento com o modelo político vigente da época. 

No discurso de posse da Presidência da entidade, em 1981, Tasso falava sobre a renovação: “O CIC tem um compromisso em nível estadual, regional e nacional com a formação, o mais rápido possível, de uma classe política competente e forte, capaz de influenciar e até assumir o poder.”

Ele ocupa a Presidência da entidade até 1983, quando é sucedido por Sergio Machado, sendo eleito para seu primeiro mandato de governador do Ceará em 1986. Depois veio a ocupar o cargo por duas vezes consecutivas, de 1995 a 2003.

 

O INÍCIO 

Logo no surgimento, em 1919, os empresários do CIC, liderados por Tomás Pompeu de Souza, se organizaram para superar os efeitos acumulados da grande seca de 1915 e das enchentes de 1917, além das greves de trabalhadores. 

Os integrantes ainda não tinham uma forte identidade como industriais, normalmente eram grandes comerciantes que, pelo instinto empreendedor, passaram a ter fábricas, em geral do setor têxtil. A instituição possuía um caráter segregador, já que o estatuto só permitia o ingresso de empresas com pelo menos 10 funcionários. 

Com o surgimento da Federação das Associações do Comércio e Indústria do Ceará (Facic) em 1929, o CIC sofre um esvaziamento. Reunindo as duas categorias, e mais flexível, a nova entidade assumia o protagonismo das relações. 

Um novo impulso industrial só surge com a Era Vargas (1930-1945); período que coincide com a Segunda Guerra (1939-1945), e as entidades ganham novo fôlego. A Fiec, fundada em 1950, passa a reunir sindicatos. Com a necessidade de apoio na defesa dos interesses das empresas, o CIC se torna uma entidade anexa à Federação, em 1959. E volta a se apartar dela com o início da segunda fase, marcada a partir de 1978.