Economia

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ARTIGO – A TRANSFORMAÇÃO DA INDÚSTRIA CEARENSE EM 2021

 

 

POR: CÉLIO FERNANDO B. MELO
Economista*

 

 

 

 

 

ano de 2020 será definido como um novo ponto de mutação, de fato, da indústria no mundo. Este é o contexto em curso. 

Há algum tempo, reforçado em 2014 no Fórum Econômico Mundial (FEM), o World Economic Forum (WEF), realizado em Davos, na Suíça, nascia um conceito como marco da 4ª Revolução Industrial, a Indústria 4.0. Era o início de um longo debate da transformação digital da indústria. A vida na sociedade da informação exigia mais conhecimento e velocidade na implantação dos novos conceitos e processos. O homem entrava em um labirinto de exigências e adaptação à realidade vigente.

A competitividade na globalização trouxe consigo o pensamento complexo e com alta produtividade dos fatores de produção. Limites foram trazidos às nações estagnadas na inovação e tecnologia. Muitos Estados procuraram construir fronteiras pela dificuldade em competir. O mundo ocidental se tornou hostil a aberturas econômicas destruindo os blocos na defesa de empregos e protecionismos. Movimentos políticos nas grandes potências elegeram nacionalistas com um oxigênio xenófobo. Resultado exemplar, o Brexit, avanço do pensamento tradicionalista em prol da manutenção nativa do status quo do emprego da mão de obra. O mundo assistiu à emergência do novo inimigo geopolítico na guerra fria sino-americana, definindo como adversário a luta pelos empregos na nova ordem mundial. 

 

As lições chegaram ao Brasil. A política interna, de forma esquizofrênica, buscou lados, pregando intolerância na tentativa de encontrar soluções rápidas. Ao mesmo tempo, o discurso dos governantes se tornou cada vez mais simplista, erradicando o conhecimento da pauta para o pragmatismo ocidental de resultados imediatos sem sustentabilidade econômica, nem socioambiental. A tentativa de reformas estruturais teve um bom início, emplacadas com os gastos da previdência, sem praticamente nenhuma mudança do modelo, basicamente ampliando o tempo de contribuição e a redução de benefícios. Importante para o primeiro round de ajuste do equilíbrio orçamentário, sem consequência alguma, considerando a chegada da tempestade perfeita de crises. Somaram-se uma crise sanitária, uma econômico-social e, por fim, a político-institucional.

O contexto e o momento definirão as nossas escolhas doravante, mais uma década perdida ou o protagonismo mundial de um potencial inexplorado de riquezas e um tamanho continental de mercado. A palavra de decisão acompanha um pensamento sistêmico, complexo e, acima de tudo, disruptivo. Seria uma forma utópico-idealista de enfrentar as adversidades ou encontrar o otimismo e a esperança em vantagens competitivas e vocacionadas do nosso País, Estado ou Município? 

Para todo modelo são necessárias premissas. A corrupção pandêmica, endêmica e histórico-cultural precisa de uma trégua dos grupos de interesse para redefinirmos o Estado, parte do quebra-cabeça. Faz-se necessário o papel do Estado básico: eficaz, eficiente e efetivo na sua condução. A crença é de que o momento oferece uma transição, porque os dias de corrupção também estão contados a partir do uso de supercomputadores e Inteligência Artificial (IA) e o consequente algoritmo de cruzamento de informações.

Compreender que o Estado no seu foco – à saúde, à educação e à segurança pública – atenderia a sociedade, como já deveria ser, na condição prioritária em suas ações. Os governos, em todas as esferas — federal, estadual e municipal —, encontram-se deficitários e desequilibrados na relação fontes e usos, arrecadam e gastam mal. Podemos imputar essa situação ao sistema político deformado, aos pilares estruturais demasiadamente desajustados ou simplesmente à falta de governança. O diagnóstico direto é para sairmos da inércia diante das dificuldades profundas que nos encontramos nesse novo ponto de mutação. 

Mais do que se concentrar nas funções alocativas, distributivas e estabilizadoras, o papel do Estado essencialmente deve se conter em facilitar o ambiente de negócios para a atividade produtiva. Também, facilitar a vinda dos investimentos e desembaraçar a burocracia da corrente de comércio. Deixar a atividade produtiva livre para produzir com diretrizes básicas de sustentabilidade econômica, social e ambiental. Simplificar a desordem tributária. Ser seletivo nos investimentos públicos da infraestrutura, principalmente, para cobrir o déficit de precariedades da logística intermodal, das cadeias produtivas da água e da energia. Por fim, a consolidação e a atualização dos marcos regulatórios se adaptando a esse novo mundo. Um “Watson” do direito administrativo público para atender a evolução da nova indústria. Priorizar e focar são as palavras-chaves da transformação econômica e social do nosso País.

 

O mercado imperfeito pode ser o primeiro a dar o exemplo para aproveitar a 4ª Revolução Industrial. Surfar nessa onda significa um olhar profundo sobre nossa capacidade e competência de realizar transformações em nossas cadeias produtivas. Trata-se de esquecer a dimensão setorial e integrar setores na formação de clusters e hyperclusters, cadeias produtivas transversais em outras cadeias produtivas. Conceitos como interconexão e interdependência devem estar no diálogo mais pragmático e de resultados da indústria. Compreender as causas e os efeitos, suas repercussões, em cada ação e fazer o gerenciamento integrado interno e externo de todas as atividades é parte da nova função dos líderes empresariais.

A Governança Corporativa, diretamente, cria valor para os agentes do mercado e facilita o acesso ao capital. No entanto, não deve servir somente para esse fim. A mudança de comportamento do Gestor brasileiro “pragmático” deve encontrar uma agenda que tem a visão do curto prazo com o aprofundamento das questões estruturais da corporação, a visão de longo prazo. Trabalhar concomitante o curto e o longo prazos será o grande desafio de nossos líderes. As distorções de mercado no Brasil criam resultados de curto prazo com decisões de curto prazo no conceito de pragmatismo ocidental, o que nos leva aos constantes voos de galinha e síndrome de pavão. A compreensão da importância dos resultados de curto prazo com o aprofundamento das questões estratégicas poderá oferecer voos mais consistentes e estruturais que perenizem os resultados de longo prazo. Não perdendo de vista, a principal característica de transformação do novo líder, antes da competência técnica, altamente necessária, os atributos morais e éticos, estes sim críticos para um futuro consistente para o Brasil.

O mundo está marcado pela inovação e tecnologia. As transformações digitais estão presentes nos novos modos de produção e emprego. Vivemos no tempo que se usa a inteligência artificial e a robótica para alterar fatores para a competitividade. Passa a ser inexorável a atualização e adaptação das fábricas considerando o novo ambiente. Os robôs vieram e precisarão conversar com uma mão de obra qualificada. Atuações em áreas de maior dificuldade e perigo para homens. Pensar em trabalhos industriais muito mecânicos e a mineração profunda, com risco de intoxicação de gases, são algumas das utilidades partícipes do dia a dia de empregos da robótica. Os drones passaram a ter papéis importantes no mapeamento de áreas, na agricultura, nas atividades de pulverização e segurança de grandes glebas. Outro emprego de drones, que tem avançando cada vez mais, é no transporte de pequenas cargas a curta distância. 

Na indústria, as impressoras 3D chegaram como um raio da produção de demandas emergentes e específicas de autoprodução. Novos modelos de negócio surgem da noite para o dia. Em situações de crise, passam do design para a manufatura e a produção em uma velocidade descomunal. O exemplo dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) desenvolvidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial no Estado do Ceará (Senai-CE) na crise sanitária demonstrou a capacidade e a competência de transformação acelerada do design à produção. Criaram um problema, no entanto a solução é possível, com velocidade e conhecimento local.

Mais introduções dentro deste novo mundo industrial são necessárias. Fios inteligentes criando roupas inteligentes, por meio da pesquisa de materiais avançados, que poderão aferir a temperatura do corpo, alterando a coloração da vestimenta e, mesmo,com produtos químicos nos proteger da ação de pandemias. E, muitas mais funções, como oxímetros e outros dispositivos com simbioses industriais alterando o conceito de um material uma utilidade, um material muitas utilidades. A combinação de materiais como baterias em superfícies com nanomateriais altera a forma de como observamos o uso dos materiais. A produtividade segue forte com a simbiose inclusive biotecnológica. A partir dos carros elétricos, soluções de autonomia de baterias e formas de carregar ou captar energias têm sido experimentadas em estradas construídas com placas de células fotovoltaicas. A busca de autoprodução e autonomia altera o uso da matriz energética. Materiais de construção com absorção e transmissão de energia, o conhecimento para vencer as “propriedades elétricas exclusivas, como supercondutividade ou propriedades mecânicas superiores, como tenacidade aprimorada ou resistência a altas temperaturas”. 

A 4ª Revolução Industrial no Ceará enfrenta a conectividade como principal barreira. A disputa da geopolítica sino-americana revela a tecnologia 5G como passo importante do poder geoeconômico. A internet oferece, em suas nuvens de dados, em data centers com vantagens competitivas de nanossegundos, um diferencial formidável. A gestão integrada com IA e robótica precisa de velocidade para produções de precisão. Facilita uma nova dinâmica da Internet das Coisas e os Big Datas. Possibilidades de melhoria da produtividade e consequente competitividade. Da gestão de processos à implementação da produção inteligente, com simbioses industriais e customizadas com autoprodução de energias renováveis. 

Nasce uma Nova Indústria que terá que se adaptar rapidamente. Os investimentos precisarão ser céleres para reposicionamento da indústria tradicional da 2ª e 3ª Revoluções Industriais para a 4.0 e Sociedade 5.0. Ao mesmo tempo que se precisa do crédito para o capital de giro, precisamos empreender na busca de capitais para os investimentos em modernização exigidos pelo novo momento. 

 

Os setores antes divididos em primário, secundário e terciário — agricultura, indústria, comércio e serviços —, se confundem produtivamente para uma indústria de agronegócios, de serviços digitais, de logística integrada aos canais de distribuição, todas praticamente sem chaminés. A Nova Indústria se entrelaça em cadeias produtivas interconectadas e interdependentes em sua superestrutura e combina a infraestrutura que mais cria valor para a riqueza nas vocações regionais existentes e a serem construídas.

O ano de 2021 é disruptivo principalmente para os países em desenvolvimento. O atraso e a inércia de paradigmas se rompem num verdadeiro salto quântico para ajustar a Nova Indústria. 

O envelhecimento da população e os hiatos pela falta de acesso às oportunidades se resumem à construção de novos meios de sobrevivência e riqueza. Nossa leitura fala de uma nova era retomando a indústria aeroespacial, falando sobre veículos autônomos e sustentabilidade rígida. A segurança alimentar, a água, as energias renováveis, a qualidade de vida das pessoas vulneráveis, seja no saneamento básico ou nas habitações, passam a ter uma componente pandêmica de virtuosidade, em tempos de avanço da virtualidade. Todos podem sofrer com riscos de doenças infecciosas em escalas globais. Fronteiras econômicas não se sustentam para a mudança em curso, inclusive com um novo sistema financeiro internacional que começa a encontrar outras moedas, criptomoedas de conversibilidade mundial. Os sistemas de produção e financeiro vão encontrar uma mesma linguagem, reinserindo as pessoas em novos postos de trabalho e preços relativos. 

A oportunidade do Estado e mercado, com suas imperfeições, de encontrarem complementaridade chegou, fruto dos descasos históricos do papel de cada um. A transição de modelos precisa de capital financeiro, capital humano, capital tecnológico e capital institucional, focos e prioridades para a nova ordem. 

O planejamento da indústria cearense nas rotas estratégicas para 2025 oferece pistas para aceleração do processo de reindustrialização da economia, com Estudos de Tendências e Roadmaps. Destaco os trabalhos da Economia do Mar, Energia, Água, Saúde, Indústria Agroalimentar, Logística, Biotecnologia e outros. Como diagnóstico e outras sinalizações construídas pelo Estado, Universidades e Sociedade Civil Organizada, temos os trabalhos do Fortaleza 2040, Ceará Veloz 1 e 2 e do Ceará 2050. Todos os projetos, as plataformas e as rotas estratégicas necessitam de um processo de alavanca para serem acelerados e recuperarem de forma competitiva os investimentos, a produção, o emprego e a renda. Ficaria, nesse sentido, mais um tema para o economista Antônio Cláudio Ferreira Lima sobre a Construção do Ceará: Temas de História Econômica, 2008. 

As colocações desse texto refletem um mainstream da 4ª Revolução Industrial, discutidas nos últimos anos no Fórum Econômico Mundial (WEF) e no Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), e da revolução silenciosa da Sociedade 5.0, cujos benefícios da Revolução Industrial devem encontrar melhorias para a vida em sociedade na saúde, na mobilidade urbana, nas finanças, na infraestrutura, na tecnologia industrial e no acesso ao conhecimento. A criação de uma plataforma para o novo desenvolvimento não tem o Estado como protagonista, mas, com suas restrições, cumprir o seu papel básico, extremamente importante. O novo desenvolvimento, inclusive industrial, parte de um design disruptivo e digital, com a oportunidade de redefinir as soluções.

 

* Célio Fernando B Melo, economista formado pela Universidade de Fortaleza (Unifor), pós-graduado em Administração de Empresas (Coppead) e Administração Financeira, mestre em Negócios Internacionais e doutorando em Relações Internacionais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. Presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) – Regional Nordeste e sócio-diretor da BFA Assessoria em Finanças e Negócios.