Mauc 60 anos

Capítulo Especial 2021-2022

A ÉPOCA É POLÍTICA

“O que vemos só vale — só vive — em nossos olhos pelo que nos olha”. Na obra “O que vemos, o que nos olha” (1998), o filósofo, historiador e crítico de arte francês Georges Didi-Huberman insinua que a visão é um sentido experimentado por meio da relação estabelecida entre quem olha e quem é visto. Como “o ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois”, numa cisão do ver que defende inelutável, não apenas observamos imagens — somos também desvendados por elas. Neste binômio visibilidade/invisibilidade, o museu emerge como um olhar em partilha.

Em 2 de setembro de 2018, um incêndio de grandes proporções atingiu a sede do Museu Nacional no Rio de Janeiro e destruiu o amplo acervo construído ao longo de 200 anos. Questionado sobre propostas para a manutenção do patrimônio histórico do País, o presidente Jair Bolsonaro respondeu: “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê?”. O Brasil contém seu passado como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos arranhões e entalhes que resistem ao tempo. Construir e reconstruir um museu — e um museu na universidade — é uma aposta no amanhã, uma insurgência contra todas as políticas de desmemória que atravessam a nação.

“Guardo o Mauc como meu primeiro museu”, relembra Izabel Gurgel, comunicadora e especialista em Gestão da Cultura.“O Mauc era então o daquele desenho preciso no endereço atual, esquina das avenidas da Universidade e 13 de Maio, antes da reforma que deu a cara que ele tem hoje. Guardo a esquina onde fica o Mauc, com o painel de pastilhas do Zenon Barreto, um primor de arte urbana: é um cinema na rua aquelas jangadas do Zenon deslizando no mar. Guardo o painel junto com ‘Cidade em festa’ e ‘Cidade queimada de sol’, do Bandeira. Sempre que voltei ao Mauc, e voltei mil e uma vezes e quero ir mais, dava-me o tempo de olhar os Bandeira uma vez mais, ir descobrindo a qualidade do desenho do Aldemir, Raimundo Cela ficando maior aos meus olhos. O Mauc me apresentou também o balaio cheio do Chico da Silva. Alargava minha compreensão de Fortaleza. O Mauc e o Chico da Silva me apresentavam o Pirambu na frequência da criação artística, campo, chão de um migrante, Chico da Silva, que vai passar a outros espaços quando seu caminho se cruza com o de outro viajante, Jean-Pierre Chabloz, o suíço que vem viver no Brasil. Brinco dizendo que museu é lugar de aprender a olhar para fora”.

Em meio à precariedade sofrida por lugares públicos de vida artística, de criação e de fruição dissociados de investimentos e de dotação orçamentária própria, pontua Izabel, “o Mauc, como outras instituições nossas — nossas Brasil e não só nossas Ceará — talvez nem sempre realize a potência de que é capaz”. Para a comunicadora, a sociedade tem um desafio comum: “Pensar e fazer um museu não só interpelado pelos novos tempos e novas possibilidades de uso, ocupação, produção, criação, difusão, mas um museu que também possa nos interpelar, possa nos convocar a pensar talvez essa questão tão básica que foi colocada por Barthes e tematizou uma Bienal de Arte de São Paulo: como viver junto? Compreender a Terra como um bem comum e tocar a vida como fazem artistas — criando, tateando, intuindo novos possíveis para vivê-la, ampliá-la, estar à altura dela. Um levante em defesa da vida, uma vez que é de matança como política pública o tempo que vivemos. Como operar com nossas instituições nessa frequência?”, questiona.

Para Graciele Siqueira, os caminhos da arte são os caminhos do comum — o que nos une. “A gente tende a acreditar que um museu universitário é só da universidade; que um museu é só de quem estuda e conhece arte. Eu gosto muito de desmontar esses conceitos porque os museus são para todos nós — às vezes, eles não estão de portas abertas, mas agente tem um trabalho no Mauc para que as pessoas cheguem e se identifiquem no Mauc. Quando você passa na porta do Mauc, o ‘Jangadas’ nos lembra que o museu nos liga e nos conecta à cidade. Quando você entra no Mauc, vê refletido no espaço toda a nossa cultura, todos os nossos hábitos, todos os nossos lugares, o que nós somos. Às vezes, existe um medo de encarar a arte, porque a arte durante muitos anos foi para a elite da elite, mas a gente precisa derrubar isso cotidianamente — como Hélio Oiticica nos ensinou. A arte é para todos, a arte é transformadora. O que faz sentido na experiência museológica é reconhecer e respeitar as vivências de cada um: isso é o museu cumprindo sua função social, isso é o museu cumprindo a sua missão, isso é o museu sendo para todos”, encerra.