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Texto: Camilla Lima e Juliane Pereira
O Anuário do Ceará, a mais longeva publicação do Estado, chega à sua edição de 2026 reafirmando um lugar que vai além do jornalismo de dados. Nela, números ganham textura, gráficos respiram e páginas acolhem o desafio de unir arte e design como estratégia de organização, transformando dados em narrativa.
"Um dos maiores desafios é traduzir visualmente uma enorme quantidade de informações, dados, análises e conteúdos editoriais sem perder a clareza da leitura", afirma Andrea Araújo, editora de design da publicação.
Pensar o projeto gráfico de uma obra dessa magnitude é, antes de tudo, lidar com um paradoxo: preservar uma tradição construída ao longo de décadas e, ao mesmo tempo, reinventá-la a cada nova publicação. "Cada edição possui um conceito próprio, desenvolvido a partir do tema central escolhido. Isso permite que o projeto gráfico se reinvente anualmente, criando uma identidade visual exclusiva para cada volume", complementa Andrea.
Responsável pelas ilustrações, Rafael Limaverde constrói uma Fortaleza que não é apenas vista, mas lembrada. Seus cenários carregam história, mas também experiência pessoal. "A inserção dos personagens nos cenários foi um desafio. Mas a escolha foi muito assertiva. Sobretudo os cenários da nossa Fortaleza, que por si só já carregam um monte de história, memória e beleza", afirma.
Na publicação, a capa é uma homenagem ao artista cearense Sérvulo Esmeraldo (1929-2017). Conversamos com Andrea Araújo e Rafael Limaverde sobre os desafios de construir mais uma edição do Anuário do Ceará. Na versão digital, você confere a entrevista na íntegra.
O POVO - Como foi pensado o conceito para a edição 2026?
Andrea Araújo - A edição 2026 foi concebida como uma homenagem aos 300 anos de Fortaleza. O conceito parte da ideia de que a Cidade é formada por múltiplas narrativas, históricas, culturais, urbanas e afetivas, que se cruzam e constroem sua identidade. (...) Nas páginas internas, linhas orgânicas e recortes visuais simbolizam percursos, encontros e transformações. Esses elementos se cruzam e se conectam, representando uma Cidade em constante movimento, onde passado, presente e futuro coexistem. O resultado é uma narrativa visual que celebra Fortaleza.
OP - Como deixar uma publicação que é tão cheia de números e tão densa ser, ao mesmo tempo, poética?
Andrea - O desafio não é tornar os números menos importantes, mas revelar o que eles representam. Quando conseguimos conectar informação, memória e identidade, os dados deixam de ser apenas estatísticas e passam a contar histórias sobre a Cidade.
OP - Como foi ser convidado para esse trabalho e como o artista cearense Sérvulo Esmeraldo atravessa sua história?
Rafael Limaverde - É gratificante poder fazer arte e ainda homenagear personalidades tão importantes. E como artista essa homenagem se torna mais honrosa quando se trata desse grande expoente: Sérvulo Esmeraldo. Afora meus antepassados que tinham relação com ele por serem também do Crato, meu contato perpassa pelas diversas obras que sempre capturam meu olhar nos lugares em que está presente em nossa cidade.
OP - Ao ilustrar Fortaleza, você pensou nela mais como cenário ou como um personagem?
Rafael - Apesar de ser paraense, vivo em Fortaleza há 43 anos. Ilustrar Fortaleza é um misto de reencantamento e memória. Cada cenário, além de carregar por si só muito da nossa história, faz parte da minha própria história. Poder homenagear nossa cidade, por vezes tão negligenciada e até esquecida, nessa edição do Anuário, torna-se uma experiência de resgate de sua beleza, de sua importância e de reverência a todos que fizeram essa Fortaleza que vivemos e amamos.