Fortaleza nasce, oficialmente, em 13 de abril de 1726, quando se torna vila. Desde o início de seus 300 anos, a Cidade é construída a partir de transformações históricas, políticas e sociais. Nada apenas simbólico. Distinta pela velocidade de seus processos, tornou-se ponto de infraestrutura global, com crescimento, desigualdade e potenciais.
A quarta maior capital do Brasil concentra segmentos de sucesso na economia, investe em parcerias e se firma em diferentes mercados de forma sólida e inovadora. E tem como berço de tudo o sol, a luz, o mar e a história. Da vila litorânea à metrópole, quem é Fortaleza hoje?
Serviço, Turismo, Comércio, Educação, Cultura e Tecnologia fortalecem a liderança da Capital, que exerce forte influência sobre outras cidades do País. Com destaque para a criatividade e o pensamento crítico do fortalezense, características sempre presentes nas inquietudes alencarinas desde o século XVII.
As vozes que pensam, estudam e concretizam a Cidade destacam as repercussões históricas no processo de desenvolvimento de um município que cresceu como um tabuleiro. Conflitos, paradoxos e desvalorização. Uma idealização urbana pautada no traçado do engenheiro e arquiteto Adolfo Herbster, que por tempos conduziu o crescimento e hoje se traduz em complexidades e oportunidades.
As perspectivas da maior economia do Nordeste se consolidam e mostram a necessidade de que a política esteja ligada à sustentabilidade. Sob o entendimento de que se constrói agora os próximos 300 anos. “O que precisa para o desenvolvimento equilibrado e sustentável é a convergência entre investimento tangível e não tangível”, afirma o economista Alexandre Cialdini, secretário do Planejamento e Gestão do Ceará.
Olhar para o futuro é compreender o percurso até aqui, seguir complementando e não apartando. Fortaleza sabe que a Educação faz diferença na formação de um corpo técnico e intelectual capaz de responder às demandas contemporâneas do mercado de trabalho e da sociedade. Que dê conta das exigências dos negócios pujantes.

“Estar atento às demandas emergentes da sociedade é um dos grandes papéis da universidade pública. Quando a educação superior se articula com os desafios reais das cidades – na economia, na cultura, na inovação ou na sustentabilidade –, ela amplia sua relevância social e se torna ainda mais estratégica, competitivas e socialmente dinâmica”, afirma o reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Custódio Almeida.
Para o pesquisador Hermano José Batista de Carvalho, doutor em Planificação Territorial e Desenvolvimento Regional, pós-doutor em Estudos Sociais e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), esse conhecimento precisa acontecer em várias esferas sociais. E deve considerar as vantagens e desvantagens que a urbanização traz a uma metrópole.
“Reclama-se da falta de planejamento, porque as pessoas ainda não se convenceram que um ambiente complexo não se planeja, se entende. E quanto menos se entende, menos se conhece a Cidade. A gestão precisa se adequar a esse ambiente complexo e abandonar os preceitos antiquados de administração, adotando modelo de gestão adequado a esses ambientes”, analisa.

Comecemos, então, do começo. O território onde hoje está Fortaleza era originalmente habitado por povos indígenas. Em 1649, os holandeses, comandados por Matias Beck, fundaram o Forte Schoonenborch, nas proximidades do riacho Pajeú. Foi nessa região que começou a se constituir um núcleo populacional que daria origem à Cidade.
Em 1654, após a expulsão dos holandeses, os portugueses rebatizam o local como Forte de Nossa Senhora da Assunção. Fortaleza, então, desmembra-se da vila de Aquiraz e ascende à sede administrativa.
Seu primeiro ciclo econômico tem base na charqueada, que era a produção de carne salgada. Foi a criação de gado que começou a financiar algumas condições urbanísticas na Cidade, fazendo com que existisse mais atração e povoamento. Destaca-se a importância da população indígena no período, sendo ela a protagonista das técnicas de salgagem da carne.
Economia construída em Fortaleza no período colonial girava em torno das exportações de produtos que vinham do Interior do Ceará: couro, carne seca (charque), cera de carnaúba e algodão.
“Fortaleza passou a existir de fato e de direito em meados do século XIX, por causa da exportação do algodão pelo porto da Cidade. Antes era apenas um areal, com choupanas e pouquíssimos sobrados, sem qualquer interesse”, conta o professor Romeu Duarte, do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, especialista nas áreas de História da Arquitetura e do Urbanismo, Teoria de Arquitetura e Urbanismo, Projeto de Arquitetura e Urbanismo e Patrimônio Cultural Edificado.
Conforme ele, foi essa atividade comercial que colocou Fortaleza na rota do comércio nacional e internacional, sendo responsável pelas alterações de costumes e modo de vida alencarinos da época.
Parte dessas mudanças tem o mar como grande pano de fundo. Romeu lembra que, até o começo do século XX, o mar era apenas um local de jangadeiros e pesca. A então Praia do Peixe, colônia de pescadores, se tornou espaço para a construção de palacetes de comerciantes, ressaltando a estética e as feições de veraneio. “A função recreativa e de lazer tomou conta da orla marítima, fazendo com que rapidamente este setor experimentasse grande valorização urbana”, explica o urbanista.
Aos pescadores restou apenas deixar suas residências próximas à praia para que aquele espaço fortalezense se tornasse ponto de lazer, entretenimento e dinheiro. Na década de 1950, o Porto do Mucuripe muda novamente a configuração urbana do litoral fortalezense. Em 1960, com a abertura da avenida Beira Mar, resultado do Plano Diretor, a orla marítima passa a fazer parte da malha urbana e resulta na valorização até hoje contínua do metro quadrado na praia.
O antropólogo, doutor em Sociologia, jornalista e professor Paulo Linhares destaca que o mar é a matriz identitária da Capital, mas pondera que essa relação nem sempre foi óbvia ou pacífica. “Durante séculos, o litoral foi antes infraestrutura econômica: porto, escoamento do algodão, entrada de mercadorias, do que espaço de fruição ou símbolo cultural”, relata.
A virada acontece entre 1950 e 1960, de acordo com Paulo, quando Fortaleza começa a se voltar para o mar como imagem de si mesma. “É nesse momento que o mito de Iracema criado por José de Alencar décadas antes é reativado para nomear praias, ruas e imaginários, construindo uma identidade que apaga conflitos históricos sob uma imagem bela e conciliadora. O mar ensinou à Cidade o encanto. Mas esse encanto tem um lado sombrio: a orla valorizada empurrou populações pobres para a periferia, reproduzindo a lógica histórica da Aldeota, que Jader de Carvalho romanceou, que se qualifica às custas das bordas”, detalha.
Outros nomes e acontecimentos fazem parte da narrativa nacional destacada por Linhares como importantes para tornar Fortaleza uma cidade protagonista ao longo da história. A abolição da escravidão no Ceará em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea; e a Confederação do Equador de 1824, que inscreve Fortaleza na história brasileira como espaço de rebeldia republicana derrotada, mas formadora de uma tradição política.
“No plano intelectual, Capistrano de Abreu inicia uma história no Brasil; Alencar inicia o campo literário brasileiro; Alberto Nepomuceno, a música erudita; e Farias Brito inicia a filosofia”, nomeia o campo cultural da Capital. Linhares destaca ainda que a Capital tem um campo político forte até a atualidade, com uma boa geração de políticos e um campo econômico ousado. “Mas o campo cultural está fragilizado e com pouca autonomia em relação aos dois outros campos”.
Fortaleza pelos séculos
No período colonial e no início da vida provincial, Fortaleza tinha importância limitada, mas foi se afirmando como núcleo administrativo e ponto costeiro estratégico
Século XIX: consolidação da capitalidade e fortalecimento das atividades comerciais, com ampliação de centralidade política e econômica
Século XX: urbanização acelerada, industrialização leve, interiorização incompleta do desenvolvimento e as migrações internas transformaram Fortaleza numa grande cidade de serviços e de recepção populacional
Século XXI: a metrópole passou a operar em uma escala mais complexa. Continua sendo capital administrativa e centro regional de comércio, mas também se projeta como nó logístico, polo universitário, centro de saúde, destino turístico, ponto de conectividade digital e espaço de inovação

A luz do sol de Fortaleza encanta quem enxerga arte. Mas o amanhecer na Beira Mar também é carência. As contradições são estruturais, onde a orla qualificada convive com as periferias excluídas. A dualidade está no olhar de José Guedes, artista que captura as mudanças, principalmente cromáticas, da orla de Fortaleza.
É a “Cor do Tempo”, título da série fotográfica que captura, da câmera de um celular, todos os dias, na mesma hora, no mesmo lugar, com o mesmo enquadramento. “O sol de Fortaleza, com a intensidade de sua luz é o ideal para a escultura! Para a valorização das formas tridimensionais! Deveríamos ter muitas esculturas ao ar livre. Essa vocação natural é muito pouco explorada. Poderia ser um diferencial da Cidade em relação ao mundo”, acredita Guedes.
O artista fala em uma realidade que invade a utopia, como que indicando o risco de um futuro distópico. Na verdade, ele está descrevendo o crepúsculo matinal e as pessoas em situação de rua avistadas, também, todas as manhãs. “Mas temos a nosso favor a magia de uma linda e iluminada cidade banhada pelo mar do qual emana uma deliciosa brisa”, pondera.
O mar é encantamento, lazer e negócio. O antropólogo Paulo Linhares, doutor em Sociologia, reforça o que as estatísticas mostram: “Fortaleza é hoje um dos principais destinos turísticos do Brasil, ancorada na praia, no clima e numa oferta gastronômica e cultural crescente”.
O turismo, setor estratégico, ganha cada dia mais relevância. Dados do Observatório do Turismo da Secretaria do Turismo de Fortaleza (Setfor) mostram que, a cada R$ 1 gasto pelos turistas, a economia local fatura R$ 1,37. De acordo com o levantamento, a cada R$ 1 milhão injetado na economia por turistas, são geradas, em média, 30 ocupações diretas e indiretas. O resultado evidencia como o fluxo turístico está associado à criação de postos de trabalho em diferentes elos da cadeia produtiva.
O setor, avalia o reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Custódio Almeida, tende a ganhar ainda mais relevância no contexto global marcado pelas mudanças climáticas e pela necessidade de modelos de desenvolvimento alternativos aos atuais. Ele destaca o papel da Academia nesse processo.
“Um exemplo concreto dessa perspectiva é o novo curso de graduação em Turismo Ecológico, que será ofertado pelo Instituto de Ciências do Mar (Labomar), no âmbito do futuro Campus Iracema e terá interface com a Estação Científica de Jericoacoara. A iniciativa se conecta diretamente com a vocação turística da Cidade e com os desafios contemporâneos de pensar o turismo de maneira responsável, integrada e comprometida com os territórios”, descreve.
É pelo mar também que a infraestrutura digital transforma Fortaleza no maior ponto de cabos submarinos de fibra óptica das Américas. A Praia do Futuro é hoje espaço para o que se define como “rodovia” de informação por meio da internet por cabos que ligam a Capital à Europa, à África, ao Caribe e aos Estados Unidos. A posição geográfica aproxima o centro urbano fortalezense do mundo.
A consolidação da Cidade em um hub econômico a partir do litoral é reforçada ainda por ser o Ceará não apenas um consumidor de tecnologia, mas um produtor e inovador. É o que constata um estudo, realizado pelo secretário do Planejamento e Gestão do Ceará, Alexandre Cialdini, em parceria com a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap). A liderança é clara na região: 100% das prefeituras com fibra, 84% da população conectada e terceiro maior polo de data center do Brasil.
“E claro que Fortaleza puxa isso, porque aqui estão concentradas as principais indústrias de TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) e o potencial com os 18 cabos submarinos”, ressalta Cialdini. O estudo cita ainda os investimentos nos hubs de inovação, a expansão dos cursos de graduação sobre Inteligência Artificial (IA), produção acadêmica mais robusta e oportunidades para implementação de práticas de políticas de desenvolvimento.
Constitutivo de Fortaleza, o mar tem importâncias múltiplas, que inclui logística e geopolítica. “Mesmo quando determinados ativos estão fora do Município, a Capital se beneficia de sua posição no Atlântico e da capacidade de articular portos, retroáreas, indústria, comércio exterior e conexões internacionais”, avalia o economista Célio Fernando Bezerra Melo. Além da inserção crescente nas infraestruturas internacionais de telecomunicações e transmissão de dados, Fernando destaca a importância ambiental e climática do mar de Fortaleza.
“O mar é ativo econômico e paisagístico, mas também impõe responsabilidades. Erosão costeira, elevação do nível do mar, vulnerabilidade de áreas urbanas, pressão imobiliária sobre a orla e necessidade de resiliência climática já fazem parte da agenda do futuro de Fortaleza”, pondera o economista.
Em meio aos cabos submarinos, à economia digital e à expansão dos setores beneficiados pela posição estratégica de Fortaleza, Paulo Linhares chama atenção para os avanços que não garantem, entretanto, justiça social.
“Pelo contrário, (os avanços) amplificam as escolhas que fizemos até agora. A história de Fortaleza é uma espiral: terra, fortaleza, capital, cidade insubmissa, vitrine marítima, metrópole desigual, nó global. Cada etapa herdou as contradições da anterior sem resolvê-las. A pergunta para os próximos 300 anos não é técnica nem econômica. É política: a cidade que chegou ao século XXI como uma das mais desiguais do Brasil conseguirá, finalmente, incluir os que sempre construíram sua grandeza sem dela participar?”.
FORTALEZA TEM UM ECOSSISTEMA TECNOLÓGICO COMPOSTO POR:

Quem nunca passou por um lugar em Fortaleza e o acompanhou ser transformado urbanisticamente? Um prédio que foi demolido, um terreno que foi construído, uma escola que vai virar edifício. Observar a Cidade é acompanhar suas transformações, que foram muitas ao longo de três centenas de anos.
As edificações, as localizações e os usos dos imóveis fazem parte de um planejamento urbanístico que inclui diferentes áreas de uma metrópole, como mobilidade, moradia, turismo e serviços públicos e privados. O funcionamento da Cidade é ditado pelos prédios construídos, equipamentos públicos implementados, investimento em transporte público e pelas políticas.
“A visão de qualquer cidade se altera com o passar do tempo, criando uma imagem mutante. A questão é o cuidado que devemos ter com os monumentos, aqueles bens imóveis que passaram a ser patrimonializados para além do uso para o qual foram construídos”, discorre o arquiteto e urbanista Romeu Duarte. Para ele, a falta de valorização ao patrimônio público pode ser resultado de uma população que não o conhece.
E se apropriar do processo sócio-histórico de Fortaleza relativo à sua evolução urbana é o caminho para que as pessoas consigam sentir, viver e interagir com a Cidade. “Desfrutar sem medo, conhecer seus bairros de maneira presencial, manter contato com o seu patrimônio cultural material e imaterial e a sua natureza”, reforça Romeu.
Entre as principais mudanças de Fortaleza em seus 300 anos, estão as arquitetônicas. Edifícios, palacetes, sobrados, casas, shoppings e complexos imobiliários dos mais diversos tamanhos e usos se modificaram. Superprédios passaram a fazer parte do cenário alencarino.
O neoclássico e o eclético passaram a dar mais espaço ao limpo e abstrato. De acordo com Romeu Duarte, foi o concreto armado que fez isso. “Antes, no século XIX, as construções eram erigidas com alvenaria de tijolos maciços e estrutura de coberta em madeira, sistemas construtivos que ofereciam apenas o vencimento de pequenos vãos, típicos da nossa arquitetura neoclássica e eclética. Com o concreto armado, os vãos foram aumentados e, segundo a linguagem modernista, as edificações passaram das apropriações estilísticas do passado para um aspecto mais limpo e abstrato”, detalha.
Outro fator que influenciou a mudança na arquitetura foi a evolução dos lotes. Antes estreitos e profundos, com os imóveis ocupando quase todo o terreno, os lotes passaram a ser mais largos, o que possibilitou o surgimento de edifícios com quatro fachadas, soltos dos limites dos terrenos. Essa dinâmica das edificações em Fortaleza mostra o perfil fundiário e a tradição urbanística que perdura.
Para Romeu, a transformação da arquitetura fortalezense teve grande destaque a partir da criação da Escola de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC), em 1965. “Mãe de todas as demais existentes no Ceará e responsável pela formação de arquitetos e urbanistas locais”, pontua.
Atualmente, conta com sistemas construtivos e estruturais complexos, usando concreto protendido, aço e vedações com vidros especiais etc. “A arquitetura atual procura construir uma linguagem contemporânea, muito marcada por exemplos externos. Todavia, penso que ela poderia ser mais ligada ao nosso ambiente e às realizações locais, inclusive as do passado, num exercício de renovação, inovação e valorização cultural”, define Romeu.
Economia pungente, desenvolvimento digital e desigualdade histórica
Desenvolvimento, economia, dependência, planejamento e entendimento. O crescimento de uma metrópole como Fortaleza é concreto, mas também desafiador. Muitas cordas a serem manuseadas, como uma marionete viva que precisa equilibrar segmentos, perspectivas e história.
A economia de uma cidade é o fio condutor de políticas públicas e investimentos, com impactos diretos na qualidade de vida da população. Fortaleza é a 12ª economia do Brasil, maior do Nordeste, com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 86,93 milhões e participação de 37,44% no PIB do Ceará.
A natureza econômica da Capital, de acordo com o economista e secretário do Planejamento e Gestão do Ceará, Alexandre Cialdini, tem cinco grandes setores: construção civil, submissão tributária, bancos, tecnologia e saúde. A análise é feita a partir do Imposto Sobre Serviço (ISS), de arrecadação municipal, e tem foco em um dos setores que mais desponta.
“São ramos muito importantes para a Cidade. Isso, obviamente, passa por tecnologia da informação e uma economia digital. É tanto que o ISS do segmento de tecnologia é um dos maiores”, avalia Cialdini.
Um bom desempenho do ISS reflete uma boa saúde da gestão municipal para melhorar sua receita e, consequentemente, ter investimentos mais sólidos e concretos para o presente e futuro. No Município de Fortaleza, o Imposto apresenta tendência sólida de crescimento nos últimos anos e também na perspectiva histórica.
Cialdini destaca o setor de Saúde na Capital, que tem papel estratégico e crescente, com oferta de emprego, impacto em serviços e na fomentação da inovação. “É um espaço a ser explorado. E destaco aqui a criação do um projeto que eu acho que precisa ser retomado, que é o eixo de saúde lá no campus do Porangabussu, envolvendo a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Prefeitura e o setor privado”.
Esse cluster da Saúde pensado para a Capital reúne empresas, instituições, universidades, centros tecnológicos, incubadoras, residências médicas e tem em seu escopo ações integrativas com a comunidade. Os investimentos no setor têm dinâmica intensa, resiliente e tendem a crescer à medida em que vão se construindo polos de referência.
Em seus 300 anos, Fortaleza adquiriu status de capital a ter exemplos seguidos, principalmente no contexto regional. O Município supera Salvador (BA) e Recife (PE) no que tange ao ranking do PIB brasileiro. “Do ponto de vista do nosso território, Fortaleza influencia muito Teresina, Mossoró… e gera muita influência ainda sobre algumas cidades da Paraíba, de forma elevada. Mas não temos parâmetros que possam mensurar este grau de influência, infelizmente”, destaca Cialdini.
O crescimento é constante, e a desigualdade perdura. Cialdini afirma que a boa governança da quarta cidade mais populosa do Brasil é ponto chave. “Fortaleza ainda é muito dependente do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), o que demonstra um grau importante ainda de pobreza”, enfatiza.
Modalidade de transferência de recursos financeiros prevista pela Constituição Federal, o FPM é uma verba que a União paga para os municípios, compartilhando parte do que foi arrecadado pelo Imposto de Renda (IR) e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O cálculo que define quanto cada cidade vai levar é feito pela renda per capita e pela quantidade de habitantes.

Outro desafio para a Capital cearense está na pontuação que considera os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a serem alcançados até 2030. A classificação das cidades para o cumprimento dos objetivos é um bom indicador para que se avaliem quais as oportunidades de mudança e potenciais da Cidade.
“A gente tem a oportunidade de avaliar, inclusive, quais são as cidades inspiradoras para os próximos 300 anos de Fortaleza”, afirma Cialdini.
Cooperação entre Estado e Município, base de dados e cadastro com utilização de IQ generativa, sistemas produtivos locais, âncoras econômicas e uma boa pauta tributária, com olhar externo e interno, são alguns dos caminhos que Fortaleza precisa seguir, de acordo com o economista. “Aquilo que é mais significativo do que as cidades perseguiram, olhando para as vantagens competitivas que a cidade tem”, reforça.

Para Célio Fernando, é preciso considerar o papel da infraestrutura metropolitana e regional, mostrando que Fortaleza não funciona de maneira isolada. “Seu dinamismo econômico se conecta com o aeroporto, com o sistema portuário, com as rodovias, com as redes de telecomunicação e com a posição do Ceará nas cadeias de exportação, importação e transição energética”, resume.
O dinheiro entra na Capital por diferentes canais, como mercado interno urbano, folha pública, turismo, economia regional, conhecimento. “Mas, assim como o dinheiro entra, ele também sai. Sai na forma de compra de bens industrializados produzidos em outras regiões do País; sai por meio de lucros, dividendos e decisões empresariais centralizadas fora do Ceará; sai quando empresas e cadeias varejistas capturam valor local e o transferem para sedes externas; sai pela dependência de serviços financeiros, insumos, equipamentos e tecnologias não produzidos localmente”, detalha.
O economista explica ainda que Fortaleza apresenta circulação de riqueza de forma desigual, com os maiores rendimentos concentrados em determinadas áreas, enquanto outras permanecem mais associadas à informalidade, à baixa renda, à precariedade urbana e a menores oportunidades.
O PIB, que dimensiona a Cidade de forma econômica nacionalmente, não pode ser analisado de forma isolada. É a centralidade funcional que falará mais alto, reforça Fernando. “A cidade exerce influência porque reúne serviços de alta complexidade, conecta fluxos nacionais e internacionais, organiza o território metropolitano. Em muitos aspectos, seu peso regional é mais revelador do que o simples lugar exato que ocupa em um ranking”.
O crescimento fortalezense em alguns setores acontece enquanto os setores históricos estruturantes permanecem. Não existindo uma economia “velha” ou “nova” para a Cidade, mas uma dinâmica de sobreposição, que tem base no grande mercado urbano e centro de serviços tradicionais, enquanto incorpora novas especializações.
Desigualdade que deriva da seca
“Trezentos anos depois, Fortaleza é a 4ª maior capital do Brasil, um nó metropolitano do Nordeste e um ponto de infraestrutura global de cabos submarinos, hidrogênio verde, economia digital. Mas essa velocidade de transformação não apagou suas fraturas originais”, conta o antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense Paulo Linhares.
Ele fala da desigualdade, que também está presente na Cidade três vezes centenária, destacando que é preciso compreender o percurso de forma crítica. O que vai distinguir Fortaleza de outras capitais brasileiras é a “velocidade de seus processos históricos”.
“Cidade que aboliu a escravidão quatro anos antes da Lei Áurea, que se rebelou contra o Império em 1824, que urbanizou em décadas o que outras cidades fizeram em séculos.Que fez experiências de gestão de esquerda pós ditadura antes de todas capitais”, rememora Paulo.
A desigualdade, entretanto, que nasceu com as grandes secas do século XIX, ainda organiza a Cidade que acelera. As estiagens provocaram a chegada de retirantes e Fortaleza se tornou uma cidade popular, com crescimento urbano. “Os retirantes que chegavam à Capital não eram figurantes da catástrofe, eram agentes que refizeram a cidade com seus corpos e suas ocupações”, diz Paulo.
O doutor em Planificação Territorial e Desenvolvimento Regional e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) Hermano Batista, explica que as secas foram determinantes para o inchaço de Fortaleza. E que a mesma dinâmica não aconteceu com tanta força com outras metrópoles, porque em outros estados havia centros econômicos no Interior. “Como Mossoró, no Rio Grande do Norte; e Campina Grande e Sousa, na Paraíba”, cita.
Centro: passado e futuro mais fortes do que nunca

O vai e vem frenético de pessoas e mercadorias. Loja, igreja, praça, ambulante, museu. O Centro de Fortaleza dá origem à geometria urbana e, ao longo desses 300 anos, passou por diferentes fases. Lugar de fortalezas, de militares, de defesa, de mártires, de sociedade, de pobreza e de comércio.
O Centro sempre foi um ponto estratégico que, por séculos, se consolidou como um dos principais polos urbanos do Nordeste. Espaço originário de atividades comerciais, equipamentos culturais, religiosos e de instituições públicas. “Um motor econômico da Cidade até hoje”, resume o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) Fortaleza, Maurício Filizola.
Dos bondes de tração animal de 1870 até a intensa motorização, o Centro sofreu os impactos da decadência habitacional, da urbanização dispersa, da motorização e do surgimento de novos polos de centralidade em outros bairros. A preservação de seu patrimônio histórico é desafio, como os planos de revitalizá-lo. A recuperação da zona central é necessária.
Filizola concorda que as mudanças ao longo do tempo trouxeram impactos e conta que acompanhou outras regiões de Fortaleza se desenvolvendo, como Aldeota, Meireles, Parangaba, Messejana e Papicu.
“Esse processo sempre trouxe muitos desafios”, destaca, acrescentando outros impactos, como informalidade e insegurança. “E principalmente a não preservação dos imóveis e a falta de valorização do patrimônio histórico. O Centro precisa revitalizar e preservar prédios históricos, estimular o turismo cultural e fortalecer a identidade da Cidade”.
O coração urbano e econômico de Fortaleza é mais do que um bairro, reforça Filizola. Comércio atacadista, varejista, serviços financeiros, equipamentos públicos e transporte fazem do Centro o pêndulo de uma vida urbana intensa. “Muitos se deslocam até o Centro diariamente para trabalhar, comprar ou para resolver pendências, às vezes até de saúde”, detalha o presidente da CDL Fortaleza.
A redescoberta do papel estratégico do bairro passa por mais convivência, cultura, turismo e um ambiente de comércio e serviços pulsante. “Representa esta memória viva da nossa Cidade. É mais do que um bairro, é um ponto onde Fortaleza nasceu, cresceu e se conecta economicamente com todo o Ceará”, ressalta.

O Centro vai receber, no terreno onde funcionou o antigo Mucuripe Club, entre a Travessa Icó e a Avenida Leste-Oeste (Presidente Castelo Branco), a sede da Câmara Municipal de Fortaleza.
A proposta prevê que a mudança levará cerca de mil servidores para o Centro, além de vereadores e público atendido diariamente. A futura estrutura deverá ampliar serviços já oferecidos, como atendimentos da Central da Cidadania, Procuradoria da Mulher e Ouvidoria, além de outros tipos de serviços.
“O Centro é um território econômico também de grande impacto social. Tem muitos equipamentos e situações que trazem este olhar. E é onde se encontram os pequenos comerciantes, grandes lojas, tradicionais… Muitas outras que passaram pelo tempo e foram transformadas ou deixaram de existir. Mas há sempre uma renovação, e o papel da CDL é buscar revitalizar esta região, que é tão importante para o nosso Município e para o nosso Estado”, deseja Maurício Filizola.
Educação forma os próximos 300 anos
Fortaleza é um grande laboratório vivo para produção de conhecimento. Complexidades, contradições e potencialidades que perpassam pela Educação, do ensino infantil ao superior. A Cidade reúne diferentes 31 campi, entre públicos e privados.
“O peso da Educação para Fortaleza é bastante significativo, e isso tem sido demonstrado em pesquisas importantes do que temos em termos de educação superior. Há uma construção da ciência aplicada, com papel importante que excede Fortaleza e chega à Região Metropolitana”, detalha Alexandre Cialdini, economista e secretário do Planejamento e Gestão do Ceará.
Universidades são espaço de pensamento crítico, inovação e debate, o que torna Cidade, docentes, discentes e instituição partes de uma parceria fundamental para o progresso. Fundada em 1954, a UFC cresceu junto à Fortaleza e ajudou a interpretá-la e transformá-la.
“Ao longo dessas décadas, a produção acadêmica da UFC tem contribuído para compreender fenômenos urbanos, sociais, ambientais, econômicos e culturais que moldam a capital cearense – isso desde os desafios da mobilidade urbana e da desigualdade social até as dinâmicas do desenvolvimento regional, da saúde pública, da educação, segurança hídrica e da sustentabilidade ambiental”, ressalta o reitor da UFC, professor Custódio Almeida.
Ele ressalta a importância de a Universidade reunir pesquisadores, estudantes e especialistas de diferentes áreas do conhecimento, tornando o campus um espaço privilegiado para refletir sobre o modelo de Cidade para o futuro. “Seria uma cidade mais inclusiva? Mais sustentável? Mais democrática? Mais orientada pelo respeito aos direitos? Nossa produção científica, nossos projetos de extensão e todos os espaços de discussão acadêmica que oferecemos ajudam a iluminar caminhos para políticas públicas mais eficazes e socialmente comprometidas”, pondera Custódio.
O reitor enfatiza ainda que o processo de interiorização da Universidade, iniciado em 2001 (com campi atualmente nas cidades de Sobral, Quixadá, Russas, Crateús e Itapajé), cria uma circulação de conhecimento e oportunidades. “Com estudantes do Interior chegando à Capital e com jovens da Capital também passando a estudar e desenvolver pesquisas no Interior, essa rede fortalece o desenvolvimento regional e evita que o conhecimento fique concentrado apenas nos grandes centros urbanos”.