"O Ceará é uma terra que ainda não acabou de nascer." De um ilustre cearense.
Por Célio Fernando Bezerra Melo
Economista, vice-presidente da Academia Cearense de Economia
I. Uma visão glocal: o local que fala ao mundo
"Não tenho tempo de temer a morte." Belchior cantou assim, e o Ceará de hoje ecoa esse verso com intensidade renovada. Não é mais apenas o Estado do sol e do vento. É o Estado que aprendeu a transformar seus elementos naturais, pedra inclusive e água do mar, em vetores de uma economia do século XXI, que pensa globalmente, age localmente e conecta o chão de barro do sertão ao fundo do oceano Atlântico.
Essa virada tem símbolos físicos. A nova sede do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC e a instalação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará não são apenas obras. São declarações de intenção de um Estado que não apenas consome tecnologia e cultura, mas as produz, exporta e enraíza em sua identidade. UFC, IFCE, Unifor e Uece exemplificam esse modelo de P&D com maestria. Com um PIB estimado em R$ 252,9 bilhões para 2025, crescimento médio de 4,2% ao ano entre 2020 e 2024, acima da média nacional de 3,6%, o Ceará consolida sua posição como a décima segunda maior economia do Brasil e a terceira do Nordeste. O setor de serviços já responde por mais de 60% do PIB estadual, sinalizando uma transição estrutural que os economistas chamam de nova industrialização criativa: menos chaminé, mais código; menos extração bruta, mais inteligência aplicada.
Essa transição tem rostos, famílias e histórias. Os Dias Branco transformaram biscoitos em império alimentar global com faturamento superior a R$ 10 bilhões anuais e presença em dezenas de países. Os Macedo, Ferreira, Lima, Pinheiro, Araripe, Queirós, Queiroz e Sá construíram ao longo de gerações as bases do comércio e serviços, da indústria e do agronegócio cearense, provando que empreender no Ceará não é herança de sorte, mas cultura de geração. Maia Júnior soube manter a continuidade de um projeto de desenvolvimento quando outros recuavam, e o modelo cearense de gestão pública tornou-se referência nacional. Raimundo Padilha, à frente da Bolsa de Valores Regional, foi um dos construtores silenciosos do mercado de capitais nordestino, abrindo caminhos para que o empreendedorismo cearense encontrasse financiamento e escala. Eudoro Santana foi pioneiro da consciência ambiental quando o tema ainda era considerado luxo de idealistas, um dos arquitetos da política de recursos hídricos do Estado, com a visão de quem soube antes de muitos que a água seria o recurso estratégico do século XXI no semiárido.
II. A alma criativa e a música que o Brasil cantou sem saber
Aqui é preciso fazer uma confissão coletiva: boa parte do Brasil cantou Fausto Nilo sem saber que estava cantando o Ceará. Nascido em Quixeramobim, em 1944, é um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Enquanto suas músicas viravam hinos, seu nome ficava na sombra dos intérpretes que as imortalizavam. "Bloco do Prazer", na voz de Gal Costa, virou trilha sonora de uma geração inteira. "Dorothy Lamour", com Ednardo, é uma das canções mais tocantes do cancioneiro nordestino. Ao lado de Belchior, Fagner, Ednardo e Rogério, Fausto Nilo é pilar do Pessoal do Ceará, movimento que nos anos 1970 levou ao Rio e a São Paulo uma sonoridade nova, misturando baião, rock, poesia e surrealismo nordestino. Uma economia criativa avant la lettre que exportou identidade cearense ao Brasil inteiro.
Essa alma criativa encontra hoje uma infraestrutura que a potencializa. A economia criativa cearense movimenta mais de R$ 4,5 bilhões anuais, englobando design, moda, artesanato, gastronomia, audiovisual, música e tecnologia criativa. O Estado abriga mais de 30 mil empreendimentos criativos formais, além de uma vasta cadeia informal que sustenta comunidades inteiras no litoral, no Cariri e no sertão. Dentro dessa economia, a cultura se aprofunda nas raízes: o artesanato em renda de bilro de Redenção, as peças em barro de Juazeiro e as instalações do Dragão do Mar são ativos que geram renda, identidade e atração turística.
III. A infraestrutura digital: do fundo do mar à nuvem
O Ceará já é o principal hub de cabos submarinos da América Latina, com 18 cabos de fibra óptica aportando em Fortaleza, mais do que qualquer outro ponto do continente. Esse ativo geopolítico transforma a capital cearense em nó crítico da internet global. Sobre essa infraestrutura crescem os data centers, 12 instalados e em finalização, com investimentos superiores a R$ 4 bilhões nos últimos cinco anos, operações de players globais já instalados e novos anúncios para o biênio 2025 e 2026, de centenas de bilhões para os próximos anos. As vantagens são objetivas: energia renovável a custos competitivos, posição geográfica que oferece latência baixíssima para Europa, África Ocidental e América do Norte.
O horizonte aponta para o fundo do mar. Os data centers subaquáticos, cuja viabilidade técnica já foi demonstrada em projetos internacionais pioneiros, encontram no litoral cearense condições ideais: temperatura oceânica estável, profundidade adequada a poucos quilômetros da costa e a infraestrutura de cabos já instalada formando uma base pronta para liderar essa fronteira no hemisfério sul. Integrados a essa visão, os planadores subaquáticos autônomos, operados na Plataforma Oceânica das Canárias (PLOCAN), estão intrinsecamente ligados à pesquisa no Ceará, formando junto com tecnologias de Power Line Communication o embrião de um cinturão digital, no futuro físico, da Economia Azul: uma rede inteligente que mapeia, monitora e traduz o oceano em dados estratégicos e deverá fortalecer o planejamento espacial marinho do Ceará Azul dos Verdes Mares.
IV. A Economia Azul: o mar como fronteira produtiva
"Iracema, a virgem dos lábios de mel", de José de Alencar, não é apenas literatura. É uma carta de amor ao mar e à terra cearense que, 160 anos depois, encontra eco nas políticas de Economia Azul. A Amazônia Azul, os 5,7 milhões de quilômetros quadrados de área marítima brasileira sob jurisdição nacional, representa uma das maiores reservas de recursos naturais, energéticos e biotecnológicos do planeta. O Ceará, com seus 573 quilômetros de litoral, está na linha de frente dessa fronteira.
A pesca artesanal emprega diretamente mais de 40 mil pescadores, sustentando cadeias produtivas de R$ 1,5 bilhão anuais. A aquicultura offshore é o próximo passo: cultivo de espécies marinhas em estruturas de alto mar, com capacidade de triplicar a produção em dez anos e gerar 30 mil novos empregos na zona costeira. Os povos do campo, das águas e das florestas, reconhecida pluralidade dos territórios cearenses, encontram nessa nova Economia Azul não a substituição de suas práticas ancestrais, mas sua reinvenção tecnológica e emancipatória. Os dados oceânicos sobre regimes de chuva e temperatura informam ainda o planejamento agrícola, fechando o ciclo virtuoso entre mar e terra, entre o cinturão digital e o agronegócio que já exporta melão, manga e castanha para mais de 40 países, movimentando R$ 12 bilhões anuais no campo cearense.
V. Iracemawood: cinema, turismo de excelência e gastronomia
O turismo cearense recebeu 4,8 milhões de visitantes em 2024, gerando receita estimada de R$ 11,2 bilhões, crescimento de 14% em relação ao ano anterior. A costa abriga hoje empreendimentos que competem com qualquer destino internacional, do Carmel na Taíba ao Beach Park Acqua Resort em Aquiraz, do luxo consciente de Canoa Quebrada às novas propostas boutique do Cumbuco. A gastronomia cearense emerge como economia em si mesma, com Fortaleza figurando nos principais guias nacionais e levando a lagosta, o caranguejo, o camarão com coco e a tapioca gourmet a níveis de experiência comparáveis aos melhores do mundo.
E há o cinema. Com luz natural de qualidade cinematográfica por 300 dias ao ano, paisagens que variam do deserto ao mar turquesa e uma alma narrativa forjada em séculos de história, o Ceará tem todos os elementos para construir sua Iracemawood, um polo de produção audiovisual que gere emprego qualificado, projeção cultural global e novo fluxo turístico de produtoras internacionais. O mercado audiovisual brasileiro movimenta R$ 22 bilhões anuais, e o Nordeste representa menos de 9% desse volume. A lacuna é a oportunidade.
VI. O Ceará que ainda virá
Fagner, o eterno homem de Orós, cujo murmúrio rouco carrega o peso do granito e a leveza do vento, cantou o Ceará profundo com uma precisão que nenhum dado alcança sozinho. Nunca deixando de olhar no protagonismo da Transição energética, pensando em Biocombustíveis, Energias renováveis e o H2V. No futuro, o cinturão digital no fundo do Atlântico, a ser pensado. Uma Iracemawood ainda por ser inaugurada. Uma Amazônia Azul ainda por ser plenamente compreendida.
As novas economias que o Ceará anuncia são ecossistemas interligados que se alimentam mutuamente e têm como fio condutor a mesma teimosia criativa que fez Rachel de Queiroz escrever “O Quinze” com 20 anos em uma terra que tentava silenciar as mulheres, que fez Eudoro Santana proteger a água quando ninguém ainda sabia que ela acabaria e que fez Fausto Nilo musicar a alma de um povo inteiro sem que o povo soubesse seu nome. É transição energética, é transformação digital, é economia azul, é preciso sonhar para um dia realizar. Sempre com a Educação integrada em primeiro lugar!
O Ceará glocal não é promessa. É processo. E esse processo já estava tocando antes de alguém perceber.