Especial - O Patrimônio Cultural Cearense e os 80 anos do IPHAN

Especial

O Ceará e outros Brasis

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É mister também reconhecer que a linha interpretativa dos grandes feitos e da contribuição dos “heróis” de nossa “história oficial” determinou fortemente essa peculiar compreensão e interpretação da trajetória sócio-histórica brasileira, na qual o povo, em sua miscelânea de classes sociais, raças, origens e credos, ainda não era reconhecido como seu principal protagonista. Daí a construção da imagem de um Brasil idealizado, com manifestações artísticas próprias, entendidas como dignas de proteção e valorização por parte dos pioneiros, em detrimento de outras não reconhecidas por estes como tal. 

As ações do Iphan, consentâneas com essa orientação teórico-conceitual, vão, portanto, se concentrar nas regiões brasileiras que, para os intelectuais do patrimônio, expressavam de forma eloquente esse cenário imaginado. As cidades da administração colonial e imperial (Salvador e Rio de Janeiro) e as dos ciclos econômicos da cana-de-açúcar (Recife, Olinda e João Pessoa), do ouro e das tropas (as urbes mineiras, paulistas e goianas), com sua diversificada, rica e por vezes suntuosa arquitetura, serão aquelas escolhidas para atendimento prioritário pelo órgão federal de preservação. Outros Brasis, seja pela ocupação territorial recente, seja por manifestarem, ao ver desses estetas, valores arquitetônicos e urbanísticos de menor relevância, terão que aguardar na fila até que estes sejam compreendidos e aceitos como legítimos, operação esta que consumirá tempo considerável.

 

Na frente da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, em Aracati, há um cruzeiro que simboliza o sofrimento da Paixão de Cristo, datado de 1859 (Foto: Francisco Veloso)

 

O arquiteto cearense José Liberal de Castro é fundador do Departamento do Ceará do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-CE) (Foto: Arlindo Barreto/UFC)

 
É o que aconteceu com o Ceará, dentre outros estados‑membros da federação situados nessa zona cinza. O patrimônio edificado cearense só mereceu menção federal no fim da década de 19504, com o tombamento em 1957, pelo Iphan, da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, em Aracati. Emblemático da postura anteriormente descrita é o tratamento concedido ao bem imóvel por Lúcio Costa em seu parecer, o que evidencia também os “cuidados” dispensados pelas instâncias administrativas locais ao acervo teoricamente posto sob a responsabilidade destas:

Arquitetonicamente, a Matriz de Aracati não tem qualidades que justifiquem a sua inclusão nos Livros do Tombo Artístico como monumento nacional. Excetuados, externamente, o conjunto das portadas e internamente a banca de comunhão, é obra destituída de qualquer significação artística. Embora edificada no século XVIII, o seu interior só foi concluído no século XIX, quando também foi acrescentada a volta redonda às janelas do coro. O retábulo singelo do altar-mor, mandado vir de Pernambuco, data de 1814. O varandão do coro foi posto em 1852, pelo tesoureiro Capitão Melquíades da Costa Barros, etc.

Contudo, como os governos estadual e municipal não se interessam pela preservação do patrimônio regional ou local, o recurso à intervenção federal visaria, no caso, unicamente impedir as obras desfiguradoras que se anunciam, dando-se assim satisfação ao louvável empenho demonstrado pela população e ao interesse manifestado pelo Dr. Gustavo Barroso5, sempre atento na defesa das obras antigas da sua terra (COSTA, apud PESSÔA, 2004, p. 147).

Neste momento, o patrimônio não despertava o interesse dos escassos arquitetos existentes no Estado, este destituído ainda de escolas de arquitetura ou de qualquer outra instituição de pesquisa nessa área.

Notas:

  1. O primeiro bem tombado pelo Iphan no Estado foi a coleção arqueológica do Museu da Escola Normal, em 1941, atualmente sob a guarda do Museu do Ceará.
  2. Gustavo Barroso (Fortaleza (CE), 1888 – Rio de Janeiro (RJ), 1959) exerceu as atividades de advogado, jornalista, professor, político, contista, folclorista, cronista, ensaísta e romancista. Ideólogo destacado da Ação Integralista Brasileira, foi diretor do Museu Histórico Nacional. Membro da Academia Brasileira de Letras, presidiu-a por diversas vezes. Em 1941, foi designado para coordenar os estudos e pesquisas relacionados ao folclore brasileiro, juntamente com Afrânio Peixoto e Manuel Bandeira.