Especial - O POVO 90 anos

Especial O POVO 90 anos

Especial

Nunca Será Demais o Novo

Rômulo Costa
Jornalista do O POVO
Crédito: Carlus Campos

O ideal do jornalista Demócrito Rocha balizou a ousadia. O espaço que dispunha no jornal O Ceará não era mais sufi ciente para o que precisava ser dito. Era preciso ampliar as vozes e bater de frente com as oligarquias que se instalaram no Governo. Àquela época, as combativas colunas do jornalista contra os apontados desmandos do governo de Moreira da Rocha já tinham lhe rendido ameaças e até covardias, como o dia em que foi agredido a murros e chutes no Centro de Fortaleza por 12 policiais armados. Era uma reação à palavra. Os insultos, porém, não o paralisaram. Havia muito a dizer.

Em um sobrado na Praça General Tibúrcio, a Praça dos Leões, as primeiras edições do O POVO ganharam as ruas de uma Fortaleza ainda pequena e atrevida pelos costumes europeus, marcados pelos desígnios da Belle Époque. Era 7 de janeiro de 1928 quando o vespertino rompeu os muros da redação e se instalou em ruas, bancos de praça e mãos de gazeteiros. 

Ao preço de 200 réis, a ousadia do início tinha 16 páginas impressas em maquinário francês. Nas folhas, notícias de cá, notadamente sobre a política, mas também informações do mundo inteiro — sobre o confl ito entre a Polônia e a Lituânia, a cotação da borracha e a inundação do Tâmisa. Ainda tinha espaço para as rimas dos cordéis de Leandro Gomes de Barros e para o artigo do jornalista Jáder de Carvalho e também de uma jovem escritora chamada de Rita de Queluz, pseudônimo que deixava esconder Rachel de Queiroz.

Na primeira página, o jornalista Júlio Ibiapina, diretor do então consolidado jornal O Ceará, expunha a confiança que depositava nas páginas do recém-inaugurado periódico. Demócrito Rocha, o fundador, já no primeiro editorial, apresentou um manifesto sobre o jornalismo e a liberdade — de comunicação e também do seu povo. “Contrariamente ao pensamento de muitos, nunca será demais um novo jornal.” 

Em nove décadas de descobertas, O POVO narrou e desdobrou acontecimentos marcantes para a história do Ceará, sem esquecer os fatos relevantes ocorridos no Brasil e nos outros países do mundo. Em sua trajetória, acompanhou a ascensão e a queda de governos e regimes. Noticiou e superou a quebra da bolsa de valores de Nova York, em 1929. 

Pelas páginas do jornal, os cearenses e suas lutas foram retratados. Ao longo dos anos, apresentou a estiagem e o flagelo do sertanejo na convivência com a seca, mas também apontou caminhos de superação. Cobrou e acompanhou a construção de açudes importantes, como o Orós e o Castanhão, assim como encampou bandeiras de desenvolvimento do Nordeste, a exemplo da instalação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), este último em Fortaleza. 

A escolha do nome por “concurso popular” idealizado por Demócrito Rocha já era a pista de que a participação social seria um trunfo. A opção pela pluralidade de pensamentos fez do periódico um espaço de debates para as mais diversas vozes e tons. 

A história do O POVO pode ser contada pelo que foi publicado em suas mais de 30 mil edições, mas não é só essa a marca. O negócio se expandiu, assim como as vozes pretendidas pelo fundador. Se naquele 1928, o jornal bastava, hoje a tecnologia impõe novas formas de dizer. Ao longo dos anos, pelo rádio, TV e Internet. Ao projeto de Demócrito Rocha, incorporaram-se outras formas de dizer. O projeto pessoal do jornalista, iniciado há 90 anos, consolidou-se no tempo como um grupo de comunicação cuja marca é a inquietude da inovação.

Como um farol, o projeto traçado pelo jornalista Demócrito Rocha e expresso em seu primeiro editorial apontou para o futuro — onde nós estamos, mas também aonde pretendemos chegar. “O povo necessita de mais gritos que o estimulem, de mais vozes que lhe falem ao sentimento”, escreveu o jornalista.

Nas próximas páginas, você vai acompanhar como a reinvenção chegou ao O POVO ao longo de 90 anos. Como o jornal que se fez grupo de comunicação trafega em suas multiplataformas e modos de dizer.