Especial – Geopark Araripe

Especial – Geopark Araripe

Especial

Como tudo começou

Crédito: Karlson Gracie

NUT PEREIRA
Jornalista do O POVO

á milhões de anos, o Ceará foi a morada de seres pré-históricos cuja presença pode ser percebida ainda hoje. Dividido em nove geossítios, o Geopark Araripe é mais que um parque geológico. É a memória da vida que habitou o planeta e deixou elementos que fazem do território um verdadeiro patrimônio histórico não só nacional, mas mundial. 

Primeiro da América Latina e Caribe, o Geopark Araripe abriga registros geológicos do período Cretáceo, com fósseis de seres que habitaram a região entre 120 milhões a 100 milhões de anos atrás. Ainda hoje, é possível visualizar materiais em notável estado de preservação. Os registros contemplam uma enorme diversidade paleobiológica, que vai desde animais invertebrados a seres vertebrados, passando por vegetais que compuseram a paisagem do planeta em eras passadas.

De acordo com a Global Geoparks Network (GGN, ou, em tradução para o português, Rede Global de Geoparques), o Geopark Araripe ocupa uma área de aproximadamente 5.000 km², um território que compreende a Bacia Sedimentar do Araripe e que se expande pelos municípios cearenses de Barbalha, Crato, Juazeiro do Norte, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri, chegando aos estados de Pernambuco e Paraíba.

Mas o que levou distintos estágios geológicos para tomar forma só se transformou em geoparque, como hoje conhecemos, há pouco tempo, a partir da iniciativa de pesquisadores e entusiastas que reconheceram a importância paleontológica, científica e educativa abrigada na região sul do Estado. Em 2005, foi encaminhada à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) uma proposta de candidatura visando à inserção do Geopark Araripe na GGN.

De acordo com o professor da Universidade Regional do Cariri (Urca), Patrício Melo, um dos colaboradores da proposta de candidatura, o mapeamento da área que receberia a chancela de pertencimento à GGN foi uma das exigências feitas pelo órgão internacional. Para isso, foram necessários diversos levantamentos para comprovar a importância histórica da região em relação a outras áreas do globo. No caso da região onde hoje está situado o Geopark Araripe, os estudos desenvolvidos ao longo de décadas foram fundamentais para embasar a certeza de que o território foi testemunha da evolução da vida no nosso planeta. Mas o levantamento foi além.

“Nós fizemos um estudo geológico, ambiental e paleontológico que levou em conta as potencialidades culturais e de viabilidade econômica e turística da região. Já sabíamos que tínhamos, aqui, pontos estratégicos de biodiversidade. Acerca da paleontologia, temos fósseis raros e de idades geológicas muito distintas. Em Missão Velha, por exemplo, há fósseis de floresta de pinus de uma idade em que não existiam flores. Já em Santana (do Cariri) temos registros de flores, plantas e insetos que denotam um tempo geológico diferente do acervo encontrado em Missão Velha”, detalha. 

A iniciativa, de autoria da Urca, em parceria com a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior (Secitece), do Governo do Estado do Ceará, foi o pontapé para garantir que, em setembro de 2006, o Geopark Araripe fosse reconhecido como parte da GGN, durante a 2nd Unesco Conference on Geoparks, realizada em Belfast, na Irlanda do Norte. Assim, o Geopark Araripe passou a integrar uma rede global de proteção a territórios que guardam heranças geológicas. “O projeto Geoparks da Unesco é a principal estratégia de desenvolvimento territorial internacional que existe na atualidade”, define Allysson Pinheiro, professor da Urca e colaborador do Geopark Araripe. 

O que é um GEOPARQUE?

São áreas geográficas de significado geológico internacional gerenciadas sob os conceitos de proteção, educação e desenvolvimento sustentável. Um geoparque alia a herança geológica que possui a outros aspectos do patrimônio natural e cultural de determinada região, a fim de expandir a conscientização sobre a importância do patrimônio geológico de determinadas regiões para a história e a sociedade de hoje. Além de fomentar um sentimento de orgulho entre os moradores da região onde estão situados, os geoparques fortalecem a identificação dessa população com a área a partir da criação de empresas locais inovadoras, novos empregos e cursos de treinamento, estimulados à medida que novas fontes de receita são criadas com base no geoturismo sustentável, sem deixar de lado a proteção dos recursos geológicos.

Fonte: Global Geoparks Network (GGN) www.globalgeopark.org

Sobre a GGN

A Global Geoparks Network (GGN) é uma organização legal sem fins lucrativos com uma taxa de associação anual. Fundada em 2004, a rede busca trabalhar em parceria a partir de encontros bianuais em que são trocadas ideias a fim de melhorar práticas e fomentar projetos comuns para elevar os padrões de qualidade dos produtos e ações desenvolvidas nas regiões dos geoparques. A lista de geoparques espalhados pelo mundo contempla 140 unidades, sendo a China o país com o maior número de áreas desse tipo registradas, 37 ao todo. 

Fonte: Global Geoparks Network (GGN) www.globalgeopark.org

Diversidade geológica

Segundo a publicação Geopark Araripe: histórias da terra, do meio ambiente e da cultura, a Bacia Sedimentar do Araripe preserva fósseis de: “invertebrados (crustáceos, conchostráceo, insetos, aracnídeos, caranguejos e escorpiões), vertebrados (peixes, anuros, pterossauros, quelônios, crocodilianos e aves) e vegetais (algas, samambaias, gimnospermas e angiospermas). Dentre os insetos, inúmeros grupos foram identificados no membro Crato, entre eles: ensíferos (grilos), efemerópteros (efêmeras), hemípteros (percevejos), himenópteros (vespas e formigas), neurópteros (formigas de asas), homópteros (cigarrinhas), blatópteros (baratas), isópteros (térmitas), dermápteros (lacraias), coleópteros (besouros), lepidópteros (borboletas), tricópteros (pequenas mariposas), celíferos (gafanhotos) e dípteros (moscas e mosquitos)”.

Avaliações

A cada quatro anos, técnicos da Unesco de diferentes nacionalidades são designados a visitar o Geopark Araripe para verificar quais cuidados estão sendo implementados na preservação do território, se a administração do geoparque seguiu as orientações do plano de gestão e quais rumos são recomendados para os anos seguintes. 

“É quando a gente recebe cartão verde, que é bom, ou cartão amarelo, que diminui o intervalo de avaliação para dois anos. Também podemos receber o cartão vermelho, que significa a perda do credenciamento junto à GGN”, explica Patrício Melo, professor da Urca e colaborador do Geopark Araripe. 

Antes de receber os avaliadores, são enviados à Unesco documentos e formulários minuciosos acerca da administração realizada nos últimos quatro anos em áreas como educação ambiental, geoturismo, comunicação e gestão. A visita tem o objetivo de confirmar se as ações indicadas estão de fato sendo executadas.

Futuros geoparques

Segundo Nivaldo Soares, diretor-executivo do Geopark Araripe, há outras candidaturas em todo o País que buscam o reconhecimento da Unesco para integrar a rede de geoparques que existe ao redor do mundo. O gestor aponta que as regiões do Seridó, no Rio Grande do Norte, e de Uberaba, em Minas Gerais, são exemplos de candidaturas em estágio avançado de aprovação.

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Localizado no sopé da Chapada do Araripe, mais especificamente no município do Crato (CE), o Geossítio Batateiras é um berço de lendas indígenas distante 3 km da sede administrativa do Geopark Araripe. Integrante da área do Parque Estadual Sítio Fundão, o geossítio é cortado pelo rio Batateira, próximo à cascata do Lameiro. Entre as trilhas ecológicas do lugar, é possível observar a única casa de taipa com primeiro andar registrada nesse modelo, bem como as ruínas de um engenho de cana-de-açúcar construído no século XIX. A região possui várias nascentes que se tornaram balneários para a comunidade do entorno. De acordo com a publicação Geopark Araripe: histórias da terra, do meio ambiente e da cultura, o lugar apresenta uma intercalação de arenitos com uma rocha argilosa de cor escura (folhelho), sequência que caracteriza um ambiente fluvial sob clima quente e de semiárido, datado de 115 milhões de anos (Período Cretáceo). As condições naturais permitiram a formação de petróleo e gás, mas em quantidades insuficientes para exploração.

Quedas-d’água de aproximadamente 12 metros de altura formadas pelo rio Salgado caracterizam este geossítio, localizado a 3 km da sede do município de Missão Velha. Permeada por lendas, a história do geossítio é marcada como um dos poucos lugares onde era possível encontrar água durante todo o ano em tempos de escassez. O lugar guarda vestígios das primeiras ocupações humanas, datadas de tempos pré-históricos. O arenito de formação Cariri encontrado nas rochas da região possui aproximadamente 420 milhões de anos (Período Siluriano) e foi depositado a partir da invasão de águas de um mar raso que antecedeu a formação da Bacia Sedimentar do Araripe. O lugar preserva icnofósseis, vestígios da atividade de organismos que, neste caso, são representados por invertebrados aquáticos de aspecto vermiforme.

Fortemente caracterizado pelo aspecto histórico-religioso, este geossítio guarda lembranças de uma das maiores figuras da política e da religião do Brasil, o Padre Cícero Romão Batista. Localizado a 3 km da cidade de Juazeiro do Norte (CE), o lugar compreende a estátua de 27 m de altura do religioso, erguida em 1969. A região também contempla outros importantes pontos turísticos da região, como o Museu Vivo do Padre Cícero, a Igreja do Senhor Bom Jesus do Horto e a trilha de acesso ao Santo Sepulcro, local de romarias onde foi enterrado um dos beatos que viveu na época do Padre Cícero. A Colina do Horto é considerada o acidente geográfico mais importante de Juazeiro do Norte e está completamente localizada na zona urbana. O Geossítio Colina do Horto possui substrato rochoso formado por rochas graníticas de aproximadamente 650 milhões de anos. Trata-se de um tipo de rocha formado pelo lento resfriamento do magma a alguns quilômetros de profundidade na Terra e que alcançou a superfície graças aos movimentos das placas tectônicas e pela erosão das rochas que estavam por cima. Foi essa exposição que, após processos erosivos, deu origem aos grandes blocos de granitos facilmente visualizados no Santo Sepulcro.

Detentor de uma das mais importantes reservas paleobotânicas do Geopark Araripe, o geossítio localiza-se no Sítio Olho D’água Comprido, a 6 km a sudeste de Missão Velha (CE), em uma localidade conhecida como Grota Funda. Na região, é possível acessar um valioso acervo de rochas avermelhadas, o arenito da Formação Missão Velha, com cerca de 8 m de espessura. Lá estão fragmentos de troncos petrificados com aproximadamente 145 milhões de anos (Período Jurássico), resquícios de uma região de colinas com florestas e rios que transportavam troncos de coníferas com mais de 2 m de altura. Ao caírem, os troncos eram depositados em meio às areias e argilas, originando um material que foi fossilizado com o correr das idades geológicas. O cenário pré-histórico, com árvores abundantes e água, em nada lembra a atual região, destinada ao plantio e pastagem de gado. Parte do semiárido, a área possui pouca densidade populacional e sofre com a escassez de água.

Uma das regiões mais férteis da Bacia do Araripe, o Geossítio Parque dos Pterossauros esconde registros paleontológicos de pterossauros (variedade de réptil voador surgida há pelo menos 228 milhões de anos), dinossauros, vegetais e tartarugas. Fósseis de peixes marinhos comprovam que um dia o sertão foi mar. De acordo com a obra Geopark Araripe: histórias da terra, do meio ambiente e da cultura, “os fósseis do membro Romualdo revelam que nesta região existia uma laguna (lagos de água salgada) que, por vezes, tinham contato com as águas do Oceano Atlântico, há aproximadamente 100 milhões de anos (Período Cretáceo)”.

No Geossítio Parque dos Pterossauros, localizado no sítio Canabrava, propriedade da Universidade Regional do Cariri (Urca), é possível encontrar rochas do membro Romualdo (Formação Santana). Na área geológica foi descrita uma imensa variedade de pterossauros, pelo menos 21 espécies, com enormes cristas na cabeça ou na mandíbula. Os fósseis de pterossauros apresentam alto grau de preservação, conservando-os em três dimensões e, em alguns casos, preservando até suas partes moles. A riqueza paleontológica também revelou 22 diferentes espécies de peixes, entre grupos ósseos e cartilaginosos, alguns alcançando 2,5 m de comprimento. O Geossítio Parque dos Pterossauros está situado a 2,5 km de Santana do Cariri (CE), onde foi erguido o Museu de Paleontologia da Urca. 

Neste geossítio, fósseis de insetos, pterossauros, peixes e vegetais em perfeito estado de preservação podem ser encontrados na “pedra cariri”, calcário disposto em finas camadas de sedimentos que pertencem ao membro Crato (Formação Santana), material depositado há aproximadamente 112 milhões de anos (Período Cretáceo). Localizado a 3 km do centro de Nova Olinda (CE), o geossítio guarda uma antiga área de mineração conhecida por Mina Triunfo, cujas pedras servem para a construção civil desde o século XIX. No lugar, a mineração de pedras divide espaço com a extração de gesso, exportado para todo o Nordeste. As lavras de calcário também escondem fósseis, cujos registros envolvem pesquisadores e trabalhadores dessas minas em um esforço contínuo de preservação. A diversidade de fósseis já catalogados impressiona. No membro Crato da Formação Santana já foram descritas 46 espécies de libélulas, o que tornou o Araripe detentor da maior diversidade de libélulas cretáceas, constituindo 2% dos insetos encontrados na unidade.

Rico em arenito da Formação Exu, datado de aproximadamente 90 milhões de anos (rocha mais jovem da Bacia Sedimentar do Araripe), o geossítio encanta visitantes pela possibilidade de interpretação da paisagem proporcionada por um mirante construído no lugar. Localizado a 4 km de Santana do Cariri (CE), na estrada que dá acesso ao topo da Chapada do Araripe, o Geossítio Pontal da Santa Cruz apresenta ao visitante uma trilha em direção à Capela e à Grande Cruz, responsável pela proteção contra assombrações, de acordo com crenças populares. A Formação Exu encontrada na região “é caracterizada por arenitos coesos que constituem a formação geológica superior da Bacia Sedimentar do Araripe, atuando como uma capa resistente da Chapada”, de acordo com a publicação Geopark Araripe: histórias da terra, do meio ambiente e da cultura. O potencial permeável dessa formação permite a penetração da água da chuva, o que favorece o acúmulo necessário para originar as nascentes no sopé da Chapada.

Vestígios dos primeiros habitantes da Chapada do Araripe podem ser vistos no Geossítio Ponte de Pedra. Pinturas rupestres, resquícios de objetos de cerâmica e materiais líticos que foram usados pelos antigos habitantes Kariri dão forma a um dos pontos mais importantes para o estudo da história humana no cinturão formado pelo Geopark Araripe. Localizado a cerca de 9 km do centro administrativo de Nova Olinda (CE), no Sítio Olho D’água de Santa Bárbara, o Geossítio Ponte de Pedra corresponde a uma geoforma esculpida no arenito, efeito da erosão hídrica dos últimos milhões de anos. Os níveis mais resistentes de arenito de Formação Exu (originário do Período Cretáceo, com aproximadamente 96 milhões de anos) formaram uma composição rochosa que lembra uma ponte, daí o nome do lugar. De acordo com Rosiane Limaverde, uma das colaboradoras da obra Geopark Araripe: histórias da terra, do meio ambiente e da cultura, os vestígios da presença humana no Nordeste datam de 30 mil anos. Dentre os vestígios dos primeiros homens que habitaram a Chapada, estão “artefatos de pedra lascada e polida, que eram utilizados como armas para caça e ferramentas utilitárias domésticas”.

Área conhecida pelas trilhas ecológicas e pelas nascentes do Coruja, do Meio e do Olho D’água Branco, o Geossítio Riacho do Meio está localizado a 7 km de Barbalha (CE), na CE-060, que dá acesso ao município de Jardim (CE). De vegetação densa e úmida, a região agrega três nascentes de água cristalina que abastecem as comunidades do entorno. O geossítio está situado no parque ecológico de mesmo nome e apresenta grande importância hidrológica por conta das fontes naturais de água encontradas na região. Tais fontes surgem do contato de dois tipos de rochas: arenitos da Formação Exu e arenitos da Formação Arajara, que sugerem uma deposição em planície coberta por água em períodos de inundação, ou seja, uma deposição em planície aluvial. Exemplares da flora e fauna nativas do Araripe podem ser encontrados neste geossítio. Lá também é possível conhecer resquícios do Cangaço ocorrido no Araripe. A Pedra do Morcego, de acordo com fontes orais, teria servido de refúgio para cangaceiros como o Bando dos Marcelinos. Outros acreditam que o lugar foi parada para o grupo liderado por Lampião durante o período da Coluna Prestes, em 1926. 

O Geopark Araripe se prepara para receber mais um geossítio, o Santa Fé. O terreno reúne acervo de pinturas rupestres datadas de 3 mil anos antes de Cristo que foram estudadas pela arqueóloga Rosiane Limaverde (in memoriam). A fim de preservar os resquícios pré-históricos do lugar, o terreno foi adquirido pelos empresários Demétrio e Samir Jereissati, pai e filho, respectivamente, que comandam o hotel Iu-á, localizado em Juazeiro do Norte (CE). “Já adquirimos para assegurar que essa área seja preservada e se torne um patrimônio da humanidade com essa riqueza que tem lá. Nossa ideia é colocar em prática um projeto cativo na área com foco em estudantes”, projeta Demétrio. De acordo com Samir, os trâmites de análise de incorporação do terreno ao Geopark Araripe estão em fase final junto à Unesco.