Especial - O POVO 90 anos

Especial O POVO 90 anos

Especial

DEMÓCRITO DUMMAR

PERMANENTE INVESTIGADOR DO NOVO
Crédito: Carlus Campos

Com olhos para o futuro, as novidades e os desafios no campo da comunicação não assustaram Demócrito Dummar (1945-2008). Pelo contrário: entusiasmavam o jornalista que se fez presidente do Grupo de Comunicação O POVO ao acompanhar os passos, desde muito jovem, da tia Albanisa Sarasate pelos corredores do jornal. Por lá, deu vazão aos sonhos e se pôs como continuador do ideal construído por sua família.

“Achamos que a vitalidade de um jornal, ou de qualquer outra arte humana, se dá a partir de pequenas e sucessivas mudanças — a maioria das vezes imperceptíveis a olhares atentos, mas imprescindíveis à emoção, à paixão, à alegria do nosso cotidiano que jamais pode se transformar em algo repetitivo, burocrático”, descreveu Demócrito no editorial da edição especial de 80 anos do O POVO, em janeiro de 2008. O jornalista encarava os desafios do novo como “capital essencial do presente”.

Talvez por isso, ao longo das quatro décadas em que esteve entranhado no O POVO, sendo 23 anos como presidente, ele tenha se permitido o exercício de sonhar com o mesmo vigor que executava projetos e novas formas de enxergar o futuro. O último deles foi ter colocado no ar um sonho que guardava há tempos: a TV O POVO. Mas, assim como tudo pensado por Demócrito, não era um sonho solitário, era um projeto coletivo.

“(Demócrito) frisava sempre, nossa TV, o jornal, todas são empresas públicas, pertencem ao terreno do que não é do Estado, nem é privado, é público. Demócrito nunca esmorecia com as picuinhas, as incompreensões, as misérias do Cearazim”, descreve o sociólogo Paulo Linhares, primeiro diretor de conteúdo da TV O POVO, em artigo publicado no caderno especial em homenagem à memória de Demócrito, em 2008.

Por entender os veículos de comunicação como impulsionadores destas ideias — coletivas, principalmente —, Demócrito transformou o jornal e as outras plataformas do Grupo em instrumento de formação, mobilização e pressão política. Foi um articulador de ideias e ações que miravam assuntos os mais diversos sempre com interesses de evolução coletiva: a democracia, a liberdade de imprensa, a defesa dos direitos humanos e, sobretudo, o desenvolvimento do Ceará e do Nordeste.

Algumas das bandeiras erguidas por Demócrito marcaram a trajetória do jornal, como a segurança hídrica do semiárido cearense — herança trazida como marca desde o fundador do jornal. Mas ele forjou outros sonhos. Defendeu a transposição do rio São Francisco, a instalação de refinaria no Ceará e a criação das Zonas de Processamento de Exportações (ZPEs), como forma de reduzir desigualdades regionais. Mas, sobretudo, tinha muito claro o papel do conhecimento como principal ativo a ser trabalhado.

Demócrito sabia o quão importante era lidar com as divergências. “Ele abriu as portas do jornal para que fosse expressa a pluralidade de pensamentos. Por interesse dele, você tinha no jornal desde pensamentos altamente conservadores até os mais progressistas. Demócrito deixava florescer para que, através do embate democrático de ideias, pudéssemos avançar”, descreve o jornalista Valdemar Menezes, editor sênior do O POVO.