Especial - Uma História do Ferro e Aço

Uma história do ferro e aço

Especial

DE AGORA EM DIANTE

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A história mostra a influência metálica no Ceará. E o futuro se mostra ainda mais. O grande ponto de inflexão é a Companhia Siderúrgica do Pecém, a CSP, cuja operação começa em 2016. Em São Gonçalo do Amarante, a 60 quilômetros de Fortaleza, na terra seca, entre o mar e o semiárido, o aço encontrou um lugar para reinar.

Ainda na fase de construção, a empresa foi responsável pela criação de 15 mil empregos diretos e 8 mil indiretos, mais de 40 mil pessoas e 420 empresas estiveram envolvidas no processo desde 2008. A partir da operação, a expectativa é a geração de 4 mil empregos diretos e 12 mil indiretos, muitos dos quais serão exercidos por mão de obra qualificada, com salários acima da média da região.

Um processo similar ocorreu no pós-guerra, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, quando foi inaugurada a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em 1941, no governo Getúlio Vargas. Ser funcionário da empresa, na época ainda uma estatal, era sonho de muitos imigrantes de vários estados. “Esta companhia, vou dizer com franqueza, é uma das pioneiras do progresso do nosso País. Esta usina maravilhosa, grandiosa, dá trabalho para muitos operários, muitas famílias, de maneira que eu gostaria que existissem outras do mesmo porte desta, uma dezena de siderúrgicas do porte desta”, relatou o então pedreiro da CSN, José Henrique Dias, nascido em 1914, em Minas Gerais, conforme consta no estudo da Fundação Getúlio Vargas A construção da grande siderurgia e o orgulho de ser brasileiro: entrevistas com pioneiros e construtores da CSN.

Depois de tantos anos, o Nordeste recebe, enfim, sua primeira siderúrgica integrada, com capacidade de impactar o Produto Interno Bruto (PIB) do Ceará em 12%. Somente na primeira fase de operação, a CSP deve produzir 3 milhões de toneladas de placas de aço por ano. Trata-se de matéria-prima para fábricas em todo o mundo, ainda oferecido pelo Siderúrgica em estado semibruto. Na segunda fase, o número deve dobrar, segundo projeções da empresa, e alcançar os 6 milhões de toneladas de placas de aço por ano. Além de contribuir para deixar a balança comercial favorável, destinando 80% da receita bruta para exportação, a empresa serve como ímã para a região, atraindo similares e incentivando a abertura de novos negócios relacionados às suas necessidades. O impacto disso vai muito além dos ganhos da região do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), onde foi erguida a multinacional.

O CEO da CSP, Sérgio Leite, desenha: a cadeia produtiva da empresa já impacta, antes mesmo do início das operações, até um raio de 300 quilômetros do Porto do Pecém. “Estar em uma Zona de Processamento e Exportação permite atrair muitos novos negócios.”

A inauguração tem como marco o acendimento do alto‑forno, o chamado Blown In. Não é exagero quando Sérgio define como uma nova fase na sua indústria. Um empreendimento estruturante como a CSP afeta positivamente toda a rede de fornecedores, como ele costuma destacar. “Nosso compromisso é, na fase de operação, adquirir, no Estado do Ceará, 50% dos bens, serviços especializados e de manutenção necessários ao funcionamento da siderúrgica. Isso representa aproximadamente 50 mil itens e movimentação de R$ 400 milhões/ano em contratos de longo prazo com fornecedores locais”, afirma Sérgio Leite.

A movimentação anual de R$ 400 milhões corresponde a mais da metade do PIB de São Gonçalo do Amarante, de R$ 776.797.000 em 2013. Sérgio explica ainda que o Programa de Desenvolvimento de Fornecedores da CSP foi concebido para promover o desenvolvimento de empresas e indústrias de base da região, assim como para apoiar a qualificação da mão de obra necessária para o crescimento da siderúrgica. Foram mapeadas pelo menos duas centenas de empresas aptas a atender às necessidades. Entre os diversos fornecedores locais da CSP, estão empresas dos segmentos de material elétrico e hidráulico, conservação e limpeza, locação de automóveis, transporte de pessoal, manutenção de software e hardware, lavanderia industrial, tratamento e coleta de resíduos sólidos, uniformes, manutenção elétrica, instalação e montagem, materiais de escritório e infraestrutura de rede e cabeamentos.

O presidente da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), Ferruccio Feitosa, define como um sonho. Ele trata como um dos grandes vetores do desenvolvimento socioeconômico do Ceará. Outras grandes empresas existentes, hoje, no CIPP trabalham em sinergia, como White Martins, Mizu e Phoenix. A ideia é cada vez mais atrair indústrias como também empresas que trabalham com logística. “Estamos trabalhando na prospecção de parceiros”, declara.

Por estar em uma Zona de Processamento e Exportação (ZPE), a lei exige que 80% da receita bruta da CSP seja fruto de exportação. A produção de placas de aço será escoada pelo Porto do Pecém. Os outros 20% poderão ser destinados ao mercado interno. As ZPEs são áreas espacialmente delimitadas, onde as empresas voltadas predominantemente para as exportações gozam de incentivos tributários e cambiais, além de procedimentos aduaneiros simplificados.

Embora a maior parte da produção tenha como destino o Exterior, o vice-presidente da Aço Cearense, Ian Corrêa, está otimista e espera que, num futuro breve, seja possível deixar de importar matéria-prima e encontrá-la no Estado, por um preço menor. “A chegada da CSP nos consolida como um grande polo metalomecânico. É a continuação da linha. Daqui a pouco, poderão se instalar novas empresas com outras funções. Temos uma perspectiva grande.” O otimismo de Ian tem razões não passionais. A Aço Cearense também é potencial consumidora da CSP. Mira na competição maior, capaz de baixar custo pela competição com os fornecedores de fora. O Custo Brasil de logística é pesado. Um produto da China pode ser mais barato que de São Paulo. Não por acaso, a companhia comandada por Ian é um dos maiores importadores de aço do País.

Ian explica que a diversidade e a complexidade do setor faz com que a CSP se torne parceira e que não haja competição com as empresas locais. Cada empreendimento preenche funções complementares e distintas dentro do mercado. Ademais, Ian sabe que há uma vasta oferta de serviços e mão de obra que vem junto com a siderúrgica. “Novos postos de trabalho que não existiam na região serão necessários, até para diminuir os custos da própria CSP. Haverá opção de empresas que ofertam manutenção de máquinas, por exemplo.”

SERGIO-LEITE-300x252Um dos empreendimentos complementares é a Vale Pecém. Orçada em R$ 98 milhões, ela fornece o minério de ferro para a CSP. O desenvolvimento do polo metalomecânico também atraiu a laminadora do grupo espanhol Hierros Añon, a Siderúrgica Latino-Americana (Silat), que tem parceria com o Governo do Estado. O empreendimento, construído em área de 148 hectares do CIPP, funcionará em três etapas. A primeira conta com duas fábricas, e a segunda visa produzir 700 mil toneladas de chapas laminadas por ano. Já a terceira terá uma aciaria que confeccionará o tarugo, matéria-prima para a laminação de aços longos. A presença da Silat reduz a necessidade de exportação do aço para passar pelo processo de laminação no Exterior e voltar para o Ceará mais caro. Em vez disso, mais essa fase da produção poderá ser feita no Estado, diminuindo custos com logística e taxas alfandegárias.

 

DANIEL-GOUVEIA-300x252O Ceará ainda hoje oferece subsídios para quem deseja se instalar no Estado. Idealizado ainda no governo Virgílio Távora (1963‑1966), o polo metalomecânico vem se desenvolvendo aos poucos, tentando vencer as duas maiores adversidades da região: a falta de água e de energia. Um outro percalço é a oferta de pessoal. E foi mirando nesta demanda que nasceu o curso de Engenharia Metalúrgica na Universidade Federal do Ceará (UFC). No Brasil, ele é o único fora do eixo Sul-Sudeste do Brasil. Em todo o País, há apenas 13 instituições que oferecem a graduação.
Em pouco mais de dez anos, o curso já conseguiu formar alunos de destaque, inclusive vencendo competições internacionais, como ocorreu em 2011, no 6th Virtual Steelmaking Challenge, promovido anualmente pela World

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Steel Association. O desafio consiste em simular a produção de aço, atendendo às especificações do torneio, ao menor custo total. Três equipes cearenses participaram da prova que contou com 650 times de 25 países. A equipe formada pelo
s alunos Helilton Morais Rego Lima Filho e Fernando Emerson Viana Sousa alcançou o primeiro lugar na América Latina. O terceiro lugar ficou com a equipe composta pelos alunos Luis Eduardo Dias Teles e Geilson Martins da Silva. Em abril de 2016, Marcos Daniel Gouveia Filho, engenheiro cearense da CSP, foi o vencedor do Campeonato Mundial Steel Challenge 10, na categoria indústria, realizado em Londres pela World Steel Association.

A CSP foi uma das incentivadoras e parceiras do meio acadêmico no Ceará, antes mesmo de começar os trabalhos no Estado. Já se entendia que era preciso formar pessoas a nível local para avançar nas conquistas na região. Agora, há uma meta clara para a empresa: o desenvolvimento de técnicos que possam elevar a qualidade e a produtividade dos serviços. A parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial do Ceará (Senai-CE), via Programa de Qualificação Profissional, está rodando. Já foram treinados 1.238 jovens cearenses que estão prontos para trabalharem em toda a cadeia produtiva. Já contratou 678 ex-alunos do Senai-CE. A CSP gera a oportunidade, e “Esse é o futuro que o aço irá trazer para todo o Ceará”, afirma Sérgio Leite.