Especial - Uma História do Ferro e Aço

Uma história do ferro e aço

Especial

ARQUITETURA METÁLICA NO CEARÁ: PRIMÓRDIOS

Com seu desenvolvimento atrasado em razão do tardio processo de ocupação territorial e povoamento cearense, iniciado somente no final do século XVIII, e do seu isolamento no contexto regional, causado pelo modelo de colonização da província (do sertão para o litoral), Fortaleza definiu-se gradativamente como a Capital econômica e política do Estado pela abertura dos portos, em 1808, e a substituição da pecuária extensiva pela cultura do algodão. Essa nova conjuntura, que lhe garantiu autonomia, impôs o redesenho do quadro urbano e dos sistemas de intercomunicação viária locais, condições que propiciaram o surgimento da construção metálica em nosso meio. Segundo Castro (1987, p. 211), a partir desses dias, os vínculos com a Europa se estreitam, de sorte que, após a Proclamação da República, a capital cearense atinge um patamar que lhe permite participar do novo sistema de valorização da cidade, então implantado no país. Na deliberada busca de atualização, Fortaleza vai afastar-se cada vez mais das influências de procedência sertaneja, a fim de eliminar o largo fosso que, em tempos de “progresso” e de “civilização”, a tinham separado das capitais brasileiras de maior riqueza e de antigos esplendores.

O Prof. Arq. José Liberal de Castro aborda as vantagens deste sistema construtivo e estrutural em relação aos tradicionais executados em madeira, principalmente quanto à resistência a incêndios, à criação de grandes vãos e à pré-moldagem de componentes e peças relacionadas a essa arquitetura portátil, “o que favoreceu a possibilidade de remessa de estruturas desmontadas para terras distantes, como eram no caso o Brasil e tantas ex-colônias e colônias europeias ultra-marinas” (CASTRO, 1992, p. 70). Conforme este autor, o emprego das estruturas metálicas importadas constituiria, pois, o prolongamento desse capítulo da europeização da vida brasileira (…) Agora se contava com o produto original, elaborado pelas matrizes culturais de além-mar. Sobre o fato de figurarem como símbolos explícitos de demonstração de poder de uma burguesia urbana em ascensão, as novidades tecnológicas se amparavam em dados objetivos tais como o atendimento a prazos de construção curtos, os orçamentos definidos e pagos contra o recebimento da mercadoria, à parte o acabamento das obras, de alta qualidade (CASTRO, 1992, p. 71).

No Ceará, a construção metálica se inicia com a ampliação da rede de estradas, em meados do século XIX, quando são substituídas as pontes em madeira por outras erguidas com perfis metálicos. Em número de sete, foram implantadas durante a administração provincial do presidente João de Sousa de Mello Alvim, em 1868, para os rios Pacoti (Estrada de Aquiraz), Guaiúba, Acarape, Canoa (atual Aracoiaba), Putiú (Estrada de Baturité) e Maranguapinho (Estrada de Soure, atual Caucaia), todas encomendadas à firma inglesa Lishman & Company. Essas obras d’arte, construídas na vizinhança imediata de Fortaleza, servem de testemunho da ampliação territorial desta, ao tempo em que passam a servir à irradiação dos fluxos de abastecimento e exportação. Dessa forma, “a posição da capital e a montagem de um leque de estradas convergentes para o seu porto provocam o início da expansão da cidade, presa desde o nascedouro ao comércio britânico” (CASTRO, 1992, p. 211).

Mais adiante, com a instalação do transporte ferroviário em 1872, sendo pioneira a Estrada de Ferro Fortaleza-Baturité, a implantação das pontes ferroviárias constituiu fato mais que relevante, de que são exemplo as construídas sobre os rios Coreaú (Granja, 1882), Quixeramobim (Quixeramobim, 1884), Banabuiú (Senador Pompeu, 1900), Choró (Caio Prado, 1889) e Jaguaribe (Iguatu, 1910). Para a ligação de Sobral, importante centro coletor e distribuidor da zona norte do Estado, ao porto marítimo de Camocim, construiu-se a Estrada de Ferro de Sobral, inaugurada em 1882. De todas, a mais impressionante é a de Granja, que, com seus 112 metros de extensão divididos em dois segmentos de 56 metros embasados em um pilar e duas cabeceiras de alvenaria ciclópica de pedra, mereceu de Bezerra (1894, p. 57) o seguinte comentário: “colosso da indústria moderna, incontestavelmente a mais linda, senão a mais gigantesca do império brasileiro. (…) É trabalho americano, saído das oficinas de Phoenixville Bridge Works, perto de Filadélfia”.

Igualmente importantes são as obras executadas no período para o embarque e desembarque de passageiros e de cargas no porto de Fortaleza e a infraestrutura urbana. Dentre as primeiras, ressalta o Viaduto Moreira da Rocha, também conhecida como Ponte Metálica, erguida em 1906 e recapeada entre 1928 e 1927. Espécie de trapiche construído mar adentro, a ponte servia à atracação das alvarengas que faziam o transporte de passageiros e mercadorias para os navios ancorados ao largo, já que o calado do porto era pouco profundo. No segundo caso, avultam as caixas-d’água erguidas em 1912, no Benfica, para o abastecimento da população da Cidade, logo recapeadas com concreto em 1920. Outros equipamentos de mesmo gênero, porém menores, foram os reservatórios implantados no Passeio Público e na Praça do Ferreira, este posteriormente levado em 1921 ao Parque da Liberdade, atual Cidade da Criança. Produzidos às centenas pela empresa americana Dandy ou pela Fundição Cearense, os cata-ventos metálicos marcavam à época a paisagem fortalezense, tal como se vê nas fotografias e postais de então.

As primeiras estruturas metálicas produzidas especialmente para fins arquitetônicos surgem no final do século XIX, possivelmente utilizadas nas instalações da Estrada de Ferro de Baturité: “talvez já aparecessem nos pavilhões das oficinas, por volta de 1872 e 1873, ou nas plataformas internas da Estação Central, esta inaugurada em 1882, construída segundo projeto do engenheiro austríaco Henrique Foglare” (CASTRO, 1992, p. 69). Pela qualidade do seu desenho e arrojo estrutural, merecem também menção alguns elementos arquitetônicos, tais como as escadarias existentes na antiga sede da Ceará Harbour Company (inaugurada em 1891, ex-Alfândega, atual Centro Cultural da Caixa Econômica Federal), no solar de Jeremias Arruda (atual sede do Instituto do Ceará) e no antigo Hotel do Norte (atual Museu da Indústria), bem como os elegantemente decorados pórticos em ferro fundido presentes nas fachadas principais do Solar Carvalho Mota (antiga sede do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – Dnocs) e do antigo Hotel do Norte e os peitoris fitomórficos existentes na barragem principal do Açude do Cedro, em Quixadá.

Será somente, contudo, na passagem do século XIX para o XX, momento em que se registra o apogeu urbano de Fortaleza, quando serão erigidas as principais obras da construção metálica no Estado, a saber, o Cine Majestic (inaugurado em 1917 e destruído por um incêndio em 1968), o Mercado de Ferro (1897), a Igreja do Pequeno Grande (1903) e o Theatro José de Alencar (1910). Implantado na antiga Praça Carolina, atual Waldemar Falcão, o entreposto comercial, com seus refinados pórticos estruturais, abrangia uma área de 1.600 metros quadrados com apenas um único pavimento, todo executado em estrutura metálica. De acordo com Carvalho Neto, Silva Neto e Duarte Junior (2007, p. 25), consistia seu partido arquitetônico em uma solução bastante funcional: dois pavilhões idênticos, paralelos, distanciados cerca de cinco metros entre si, conformavam neste espaço uma passarela coberta, a principal circulação do edifício, à qual davam oito blocos comerciais, quatro sobre cada pavilhão, havendo oito cubículos por bloco, o que perfazia 64 pontos de comércio (…) Paralelas à pré-citada circulação ou avenida havia duas de igual calibre que, juntamente com uma via transversal, segmentavam o espaço interno em uma malha onde se assentavam, de maneira funcional e arejada, os oito blocos já mencionados (…) À exceção da coberta, executada em zinco, todo o sistema estrutural compunha-se de peças em ferro fundido ou laminado, a saber, colunas, treliças, vedações e adornos.

O Mercado de Ferro, produzido nas oficinas da empresa francesa Guillot Pelletier, logo transformou-se em um signo materializado da modernidade industrial, aliando “(…) o útil ao agradável, a solidez com a economia, a bellesa architectural com as regras que nos ensina a higiene pública, a comodidade com perfeita harmonia em todas as suas formas” (Trecho de “A República de Fortaleza”, edição de 19 de abril de 1987, apud GOMES, 1987, p. 171). O mercado foi divido em duas partes em 1938, sendo uma implantada na Praça Visconde de Pelotas, na Aldeota, recebendo a denominação de Mercado dos Pinhões, e a outra, após passar pelas imediações do Mercado São Sebastião, foi definitivamente locada no bairro da Aerolândia, mantendo também a função comercial. Ambos são tombados em nível municipal e foram recentemente restaurados, perdendo, contudo, a destinação primitiva.

A Igreja do Pequeno Grande tem a sua gênese na vinda ao Ceará, em 1895, por convite do então bispo Dom Luiz dos Santos, o primeiro da recém-criada Arquidiocese, das religiosas francesas ligadas à Ordem de São Vicente de Paulo. Antes, em 1884, já havia sido inaugurado o Externato São Vicente de Paulo (atual Colégio da Imaculada Conceição), o qual compõe belo quadro urbano, juntamente com a Escola Justiniano de Serpa (antiga Escola Normal), a Escola Jesus, Maria e José e a Praça Figueira de Melo, conjunto este recentemente tombado pelo Município. Em 1903, o templo foi entregue à comunidade fortalezense. Com seu arcabouço de alvenaria operando como vedação e recebendo destacada decoração neogótica, a igreja tem suas complexas arquitetura e estrutura assim descritas: sua planta desenvolve-se em nave única, tendo á frente a capela-mor, em ábside, separada da primeira apenas pela mesa de comunhão, composta por balaústres em ferro fundido. É na capela-mor que está o excepcional altar-mor neogótico, em madeira, certamente francês. Do altar vê-se o belo coro, localizado logo acima da portada principal, com acesso por duas graciosas escadas helicoidais em ferro e composto por um sistema formado por mísulas e viga-madre metálicas, que apóia o piso em pranchas de madeira, e o guarda-corpo de balaústres em ferro fundido. Ainda na nave, vê-se um púlpito em madeira ladeando a mesa da comunhão, com baldaquino, e preso a um dos pórticos que suportam o telhado. Esses pórticos, em ferro fundido, configuram a verdade estrutural do edifício: cada um deles é composto por dois perfis metálicos de seção em “H” unidos por treliças decoradas com motivos neogóticos, as quais suportam o telhado de duas águas, com grande inclinação, em telhas planas de ardósia. A sucessão de oito desses pórticos, contraventados por tirantes em ferro, definem o espaço da nave. Conformando um outro espaço, semi‑hexagonal e justaposto à nave, partem três estruturas que se unem, num único nó, ao cimo da treliça do oitavo pórtico, definindo assim a capela-mor, em abside poligonal (CARVALHO NETO, SILVA NETO e DUARTE JUNIOR, 2007, p. 27).

Os teatros representavam, por essa época, um dos principais ícones de uma elite de gostos europeus e formação intelectual positivista, sendo então um dos programas arquitetônicos mais construídos nas grandes e médias cidades brasileiras. A classe abastada fortalezense, fortalecida financeiramente pela lucrativa exportação de algodão, além dos amplos horizontes comerciais, descortinava para si também os culturais e os ideológicos. A estreita relação com a Europa e seus valores aristocráticos foi realçada na Cidade com a implantação de determinados signos. O Theatro José de Alencar foi o mais eloquente deles.

A magnífica casa de espetáculos, erigida em honra do pai do romance de temática nacional no Brasil, foi entregue ao público em 10 de junho de 1910, no auge da Fortaleza Belle Époque e em pleno governo do presidente da Província, Antônio Pinto Nogueira Accioly, o Babaquara. Sua construção foi iniciada em 1908, somente após sua estrutura em ferro fundido, produzida pela firma escocesa Walter McFarlane & Sons, ter chegado de navio à Cidade, por intermédio da empresa Boris Frères. A obra foi fiscalizada por Herculano Ramos, um dos baluartes da engenharia brasileira de então. O edifício é composto por quatro seções: o bloco eclético fronteiriço à Praça José de Alencar, o pátio interno, a sala de espetáculos e a caixa cênica.

A primeira é uma caixa em alvenaria projetada pelo Capitão Bernardo José de Melo, profusamente decorada no gosto eclético, apresentando no térreo o vestíbulo de entrada, ladeado pela bilheteria, por um café e pelos sanitários de público. No pavimento superior, alcançado por escadas helicoidais metálicas, encontra-se o foyer, ou salão nobre, comunicado ao exterior por aberturas protegidas por gradis em ferro fundido. A segunda porção, o pátio pavimentado, faz a intermediação entre o bloco de acesso e a sala de espetáculos, ponto alto da composição: eis aí o maior apelo arquitetônico existente no imóvel, resultado da equilibrada e perfeita fusão entre tecnologia e artes aplicadas. Totalmente desenvolvida em estrutura metálica, com uma filiação estilística tendente ao Art Nouveau, é encerrada por duas grossas paredes laterais em alvenaria de tijolos apresentando quatro níveis superpostos, quais sejam, a platéia, os camarotes, as frisas e as torrinhas, todos sustentados por esbeltas colunas em ferro e guarnecidos por balcões de esmerado acabamento, também executadas com o mesmo material (CARVALHO NETO, SILVA NETO e DUARTE JUNIOR, 2007, p. 28).

O arranjo arquitetônico finda com a caixa cênica, justaposta à sala de espetáculos e dotada de urdimento em madeira. No bloco fronteiro e na sala de espetáculos, registram-se pinturas murais executadas por insignes artistas cearenses, tais como Jacinto Matos, Paula Barros, Ramos Cotoco e Rodolfo Amoedo. Com a demolição do antigo Centro de Saúde, seu vizinho na lateral leste, aproveitou-se a área remanescente para a implantação de um amplo jardim, no qual foram fartamente empregadas espécies nativas, de cujo projeto paisagístico ficou encarregado o Arq. Burle Marx. O teatro, ao longo de sua existência, conheceu reformas, a saber, em 1918, 1957, 1973 e 1990, sendo esta a mais incisiva: além de inúmeros serviços de conservação, criou-se uma cortina de vidro na periferia da planta da sala de espetáculos a fim de otimizar a implantação de um sistema artificial de condicionamento ambiental e para reduzir o incômodo produzido pelos ruídos externos. O jardim lateral ganhou um espaço cênico ao ar livre amparado por recursos de som e iluminação e um anexo de 2.600 m² foi implantado, com entrada independente pela Rua 24 de Maio (CARVALHO NETO, SILVA NETO e DUARTE JUNIOR, 2007, p. 28).

O Theatro José de Alencar foi inscrito no Livro de Tombo das Belas Artes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1964, constituindo-se em bem imóvel constante do acervo brasileiro de teatros-monumentos.

Excetuando-se as edificações cujas proteções foram aqui mencionadas, as demais citadas remanescem destituídas de quaisquer cuidados culturais oficiais, muitas delas evidenciando avançado estado de degradação física. Além dos tombamentos, de modo especial para os bens imóveis ferroviários, constitui-se de fundamental importância a implementação de uma política preservacionista que resulte de “opções ponderadas e não de sobressalto pela iminência de alguma destruição” (KHÜL, 1998, p. 322), o que só poderá ser alcançado mediante um amplo trabalho de identificação e documentação arquitetônica. Na mesma linha, há que formar quadros técnicos voltados à recuperação do patrimônio construído em ferro, serviço complexo que requer capacitação especial “pelo fato de a obra condicionar a restauração e não o contrário” (BRANDI, apud CARBONARA, 2004, p. 11).

Mesmo sendo registradas poucas obras metálicas de vulto no período, por motivo do sempre agudo quadro socioeconômico do nosso Estado, estas, apesar de tudo, garantiram para Fortaleza uma aura de efervescência e atualização artística, constituindo-se em marcos significativos de sua paisagem urbana, seja por seu valor histórico, artístico, simbólico ou afetivo.