Especial - Uma História do Ferro e Aço

Uma história do ferro e aço

Especial

ARQUITETURA METÁLICA NO CEARÁ: CONTEMPORANEIDADE

A construção metálica no Ceará foi interrompida e permaneceu suspensa por muitos anos em razão do uso arraigado do concreto armado, causado pela fácil obtenção do material em nosso meio, por uma cultura de formação acadêmico-profissional centrada nessa tecnologia construtiva e pelos programas arquitetônicos e urbanísticos praticados. Seu retorno à cena, como em seu momento introdutório, dá-se associado a uma imagem de avanço e apuro tecnológico, agora, entretanto, às voltas com desafios mais ousados: correntemente utilizada para vencer os grandes vãos existentes em equipamentos públicos e privados, está a exigir dos arquitetos e engenheiros o estabelecimento de novas práticas profissionais de que o compartilhamento de conhecimentos, a racionalidade projetual e a consideração da escala da produção industrial, esta agora desenvolvida por procedimentos da robótica e da mecatrônica, são as características mais marcantes. Não se valendo mais dos rebuscamentos dos estilos históricos em suas composições, as estruturas metálicas celebram o arrojo, a esbeltez e a rapidez de execução, apresentando-se em sua essência delgada como o ápice das formações tecnológicas nos campos da arquitetura e da construção civil (CARVALHO NETO, SILVA NETO e DUARTE JUNIOR, 2007, p. 30).

Diferentemente do que ocorreu no País, com a corrida do aço iniciando-se quando da instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em 1946, no Rio de Janeiro, e sua posterior aceleração, na metade dos anos de 1960, com o funcionamento da Cosipa (SP) e Usiminas (MG), a construção industrializada em aço no Ceará deu seus primeiros passos somente no começo da segunda administração do Governador Virgílio Távora (1979-1983) com o II Plano de Metas Governamentais (Plameg II), o qual tinha como um de seus objetivos a implantação do II Pólo Industrial do Nordeste. Essa concentração de indústrias tinha no Pólo e Metal-Mecânico um de seus destaques, centrado nas operações de laminação, fundição, trefilaria, ferramentaria agrícola e manual, siderurgia e máquinas diversas.

Nesse período, Fortaleza experimentava um surto de crescimento de sua população e expansão territorial, assistindo à implantação de grandes equipamentos urbanos públicos e privados, nos quais, paulatinamente, a tecnologia e a linguagem da arquitetura com aço se insinuavam. Inspiradas nos muitos exemplos produzidos na década de 1970 nas áreas da administração, comércio, serviço, indústria e cultura por arquitetos do nível de Norman Foster, Renzo Piano e Richard Rogers e divulgados pelos periódicos internacionais de arquitetura que aqui chegavam, algumas obras surgiam em Fortaleza evidenciando novos modelos arquitetônicos. Vale ressaltar, cronologicamente, alguns trabalhos pioneiros, tais como a primeira etapa do Shopping Iguatemi (Arq. Luiz Fiúza, 1982), a sede da Associação Atlética Banco do Brasil (Arq. Antônio Carvalho Neto, 1984), o Centro Administrativo Presidente Getúlio Vargas do Banco do Nordeste do Brasil (Arqs. Marcos Thé Mota e Wesson Nóbrega, 1984), todos em Fortaleza, e a Fábrica Grendene, em Sobral (Arqs. Edilson Aragão e Herbert Rocha), nas quais a estrutura metálica já comparecia de forma destacada.

Os escritórios de arquitetura locais passaram a ampliar e aprofundar seus esforços de pesquisa no conhecimento da tecnologia de construção com aço para enfrentar programas cada vez mais desafiadores em tamanho, arrojo e complexidade. No início da década de 1990, uma obra, talvez por sua localização e visibilidade, tornou-se emblemática: a Agência Aldeota do Banco do Brasil (Arq. Antônio Carvalho Neto, 1993). Visitado e estudado por professores, estudantes e profissionais de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil, o edifício serviu de justificativa à criação de um movimento constituído por quadros técnicos do ramo e apoiado pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec-CE) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Estado do Ceará (Sebrae), o qual movimentou a cadeia produtiva do aço em nosso Estado com a realização de cursos e seminários ministrados por consultores do sul do País, onde a construção metálica se dava com maior intensidade.

Em 1997, foi criada a Associação Nordeste Brasileira da Construção Metálica (Ancom), tendo entre seus objetivos divulgar o conhecimento da tecnologia do aço na arquitetura (projeto) e nas engenharias (cálculo, fabricação e montagem). Mediante convênio estabelecido entre a Ancom, a Fiec e a Universidade Federal do Ceará (UFC), atendendo à demanda dos professores e estudantes dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia desta, foram realizados inúmeros seminários e cursos técnicos na área durante toda a década de 1990, eventos estes considerados como indicadores de sucesso do processo de difusão iniciado. Outras obras de vulto foram realizadas no período, tais como o Aeroporto Internacional Pinto Martins (Muniz Deusdara Arquitetos Associados, 1998), o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Arqs. Delberg Ponce de Leon e Fausto Nilo, 1999), a 5ª etapa do Shopping Iguatemi (Arqs. Gerardo Jereissati e Paulo Arrais, 2003), o Mercado Público de Sobral (Arqs. Ricardo Muratori, Raquel Carvalho e Patrícia Aquino, 2005) e a Torre do Luzeiro, em Juazeiro do Norte (Muniz Deusdara Arquitetos Associados, 2005), além de elementos de mobiliário urbano, helipontos, postos de serviço, entre outras relevantes.

Nos últimos dez anos, mercê da intensificação da condição de Fortaleza como metrópole, polo econômico e político regional e destino turístico nacional e internacional, bem como do destaque de algumas cidades no quadro urbano cearense e nordestino, a construção de grandes equipamentos urbanos públicos e privados tem sido cada vez mais demandada. A escala das intervenções, a complexidade dos programas, o elevado perfil tecnológico requerido, os curtos prazos de entrega das obras e a rapidez dos métodos projetuais e dos procedimentos de construção têm pautado esse processo, ao tempo que este também impõe às universidades uma transformação na formação dos profissionais que irão participar da cadeia produtiva da construção civil.

No campo específico da arquitetura, para além do seu emprego já tradicional nas cobertas, o aço começa a comparecer de forma mais ousada nos arcabouços arquitetônicos. São exoesqueletos que tanto estabelecem a forma do edifício quanto suportam suas cargas; pórticos que envolvem todo o aparato funcional do prédio, conformando o abrigo e garantindo-lhe as necessárias sombra e ventilação; gestos concomitantemente materiais e simbólicos, sugerindo metáforas diversas e valorizando o local de implantação da obra; naves em que a tectônica em aço nasce do chão e a este retorna, configurando a totalidade do espaço; tratamentos de fachada que dialogam com o clima e a arquitetura pré-existente; e volumes puros ou contorcidos, resultantes de uma gênese estrutural engenhosa, entre outras interessantes soluções arquitetônicas e construtivas.

A nova tecnologia impõe transformações à arquitetura, começando por sua linguagem. Os edifícios fazem-se mais leves e diáfanos, com elementos estruturais mais delgados. A opacidade dá lugar à transparência, intensificando a relação entre interior e exterior. Os ambientes internos se fazem mais livres e sem partições, graças aos grandes vãos vencidos. A racionalidade na definição e produção da estrutura não se constitui em obstáculo à afirmação de sua função estética. Por sua vez, o métier também se altera e se qualifica, com a entrada em cena de profissionais ligados à construção metálica, seja nos escritórios de projetos, seja no canteiro de obras, agora, mais que nunca, integrados. O cálculo estrutural e a pré-fabricação dos elementos, a adequada escolha de bitolas e seções, os modelos de encaixes e juntas, os tipos de solda, a interface da estrutura e das vedações internas e externas, entre outros detalhes, vão atrair a atenção dos técnicos envolvidos com o novo sistema construtivo.

Como destaques da produção recente, são citados o Mercado dos Peixe (Arqs. Ricardo Muratori, Esdras Santos e Fausto Nilo, 2016), implantado defronte ao mar com sua coberta em pórticos e brises-soleils metálicos; a sede do Conselho Regional de Medicina do Ceará (Arq. Expedito Deusdara, 2016), com seu rendilhado curvo em aço, em tramas de desenhos variáveis, respondendo estruturalmente pelo suporte dos pavimentos do edifício; o Campus da UFC em Sobral (Architectus, 2012), resultante do aproveitamento do prédio da Fábrica de Tecidos, construído no final do século XIX; e o Terminal de Passageiros do Porto do Mucuripe (Architectus, 2015), com sua bela coberta arqueada.

No ano de 2000, o Governo do Estado do Ceará envidou esforços para, juntamente com parceiros públicos (o ramo de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social — BNDESPar) e privados (as empresas sul-coreana, Dongkuk Steel, a italiana Danieli e a brasileira Companhia Vale do Rio Doce) criar, no município de São Gonçalo do Amarante, a empresa Ceara Steel, a qual deveria operar tendo como base energética o gás natural em vez do carvão mineral. No final de 2006, na transição entre os governos de Lúcio Alcântara e Cid Gomes, a Petrobras rompeu o contrato de fornecimento de gás a preço pré–estabelecido, o que fez com que os acionistas do projeto decidissem mudar a matriz energética para carvão mineral, de forma a tornar viável o empreendimento. Interrompido por algum tempo, o processo foi retomado em 2007 pela Dongkuk Steel, a sul-coreana Posco e a Companhia Vale do Rio Doce que, juntas, criaram a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), com investimento total estimado em US$ 5,4 bilhões (ver adiante).

Espera-se que, com a nova condição atingida pelo Estado como produtor e exportador de aço, a arquitetura construída com este material torne-se mais acessível, popularize-se e galgue importantes patamares no que tange à sua produção e fruição. A disseminação da tecnologia tem nos arquitetos os seus promotores; para tanto, estes profissionais, mais e mais, aprofundam seus conhecimentos sobre o material e os sistemas construtivos a este associados, bem como acerca de suas aplicações e processos, de maneira a obter resultados plásticos, técnicos e funcionais adequados. A arquitetura e a engenharia, integradas, saberão enfrentar os novos desafios impostos pela produção do espaço e pela construção.