Especial - Uma História do Ferro e Aço

Uma história do ferro e aço

Especial

ARQUITETURA COM AÇO: UMA REALIDADE NO CEARÁ

O professor-doutor Romeu Duarte Júnior (UFC)
e a repórter Isabel Filgueiras (O POVO)
contam esta história.
Crédito: Architectus/Divulgação Terminal de Passageiros do Porto do Mucuripe, em Fortaleza.

A CONSTRUÇÃO METÁLICA NA EUROPA DO SÉCULO XIX

O conhecimento das transformações propiciadas pela Revolução Industrial na passagem do século XVIII para o XIX, durante toda esta centúria e no início do século XX, inicialmente na Europa e depois em todo o mundo, constitui-se na base para entender o desenvolvimento da arquitetura metálica no Brasil, notadamente a do ferro. Essa expressão liga-se também à estilística do Ecletismo1, à simbologia do progresso em chave positivista e, inevitavelmente, às relações de dominação político-econômica estabelecidas, no período assinalado, entre as nações industrializadas e hegemônicas do capitalismo industrial, europeias e promotoras da segunda globalização, e aquelas dependentes dessa condição, situadas na África, na Ásia e na América do Sul. Segundo Gomes (1987, p. 178),

a Europa foi o referencial cultural essencial do Brasil até o século XIX. A maior facilidade de comunicação e a dependência econômica do país em relação ao capital industrial europeu engendraram, no século XIX, o servilismo cultural (…) O Ecletismo, enquanto atitude, comportamento ou estilo, começou a se manifestar na Europa ainda na primeira metade do século XIX (…) A Revolução Industrial fez emergir o problema da forma compatível com a nova sociedade. A busca desse novo vocabulário formal foi a tônica de todos os movimentos culturais do século XIX.

Igualmente esclarecedora é a afirmação de Lemos (1987, p. 70): “Ecletismo é a linguagem eufórica da liberdade calcada na nova tecnologia”.

Em termos de arquitetura e espaço urbano, as construções metálicas resultam da aliança estabelecida entre as novas tecnologias construtivas e os novos programas edilícios. No século XIX, a pré-fabricação em ferro fundido já era uma realidade na Europa, ao passo que as cidades aumentavam as suas superfícies e as suas populações no mesmo ritmo veloz da implantação dos sistemas de abastecimento d’água, esgotamento sanitário e iluminação pública, dos caminhos ferroviários e das rodovias e dos grandes equipamentos urbanos. Numa palavra: as velhas urbes europeias assistiam às suas provectas estruturas serem abaladas pela intensa movimentação das grandes aglomerações humanas. Tido erroneamente por uns como a época do “baile de máscaras da arquitetura” (PEVSNER, apud GOMES, 1987, p. 179), o século XIX presenciou tanto os progressos alcançados nos campos do ensino profissional técnico, do aperfeiçoamento dos sistemas de construção tradicional e da criação de novos sistemas construtivos quanto a fundação de uma nova disciplina, voltada ao desenho da nova cidade industrial, à qual Ildefons Cerdà2 dará o nome de urbanismo.

As Exposições Universais, iniciadas com a de 1851 em Londres, a qual teve como destaque o magnífico Palácio de Cristal projetado por Sir Joseph Paxton, e que tiveram seu ápice na de 1889, realizada em Paris, realçada pela inauguração das estruturalmente arrojadas Galeria das Máquinas e Torre Eiffel, foram os eventos que divulgaram mundialmente a arquitetura do ferro e o Ecletismo. Logo em seguida, esta manifestação arquitetônica entra em declínio, gerado pelo divórcio entre o rápido aperfeiçoamento técnico das construções e a cultura clássica tradicional (BENEVOLO, 1976, p. 148). As vanguardas artísticas do início do século XX já deixavam entrever seu plano: “criar uma nova linguagem independente dos modelos históricos, que se contraporá com êxito aos estilos tradicionais”. (BENEVOLO, 1976, p. 152). Importado como símbolo de progresso e ostentação pelos países que constituíam a então periferia do capitalismo, reféns da segunda tentativa de mundialização do capital pelas nações centrais, o Ecletismo, expondo em seu bojo as novas tecnologias construtivas e sua ornamentação pesada, “sobreviverá ainda por muitas décadas, mas destituído de toda a sustentação anterior, sendo impelido para posições sempre mais retrógradas” (BENEVOLO, 1976, p. 152).