Especial - Uma História do Ferro e Aço

Uma história do ferro e aço

Especial

A ARQUITETURA METÁLICA NO BRASIL: PRIMÓRDIOS

A passagem do Ecletismo e, de modo especial, a arquitetura do ferro, dá-se na virada do século XIX para o XX no Brasil cujas cidades, fossem elas pequenas ou grandes, foram todas plasmadas pelo risco português e a adoção dos programas edilícios lusitanos, aqui submetidos ao clima e aos materiais e técnicas construtivas autóctones, e erigidos pelo braço escravo. Essa condição fez com que Louis Léger Vauthier, autor do célebre Casas de Residência no Brasil (1840-1846), afirmasse, ao constatar, nos sobrados recifenses de meados do século XIX, que a escassa paleta e técnicas e materiais de construção dava como resultado paisagens urbanas homogêneas e arranjos espaciais repetidos à exaustão: “Essa forma rígida, esse tipo único, comprimida a largura, não se presta a nada, bem o compreendeis, a uma grande variedade de disposições internas. Assim, quem viu uma casa brasileira, viu todas” (VAUTHIER, 1975, p. 37).

A introdução da arquitetura do ferro, no País, deu-se inicialmente em localidades mais aquinhoadas em termos de melhores condições econômicas, favorecidas por uma comunicação mais eficiente com os centros do poderio político-econômico mundial existente à época. Conhecer esse processo, em suas vertentes regionais, é a chave para a constatação do sucesso que a arquitetura metálica alcançou em seus primeiros dias no Brasil.

Em São Paulo, a economia do café, base para a ascensão do Estado ao patamar de centro político e financeiro nacional, lastreou a sua súbita riqueza e a abundância de meios materiais para a construção, com realce para a rede de caminhos ferroviários, as edificações industriais e os edifícios pré-fabricados com estrutura em ferro fundido, todos desenhados segundo uma estética eclética. Contudo, para LEMOS (1987, p. 76), as características dessas construções todas, dada a sua natureza, não foram assimiladas pela população justamente devido à especificidade de seus programas. A ausência de siderurgia avançada entre nós, também por motivos óbvios, fez com que a arquitetura de ferro não pudesse frutificar em exemplos populares (…) [constituindo-se em] uma arquitetura sem desdobramentos, destacando-se a Estação da Luz como principal edificação do gênero no período.

Sede do governo imperial e principal porta de entrada das novidades no País, o Rio de Janeiro conheceu a nova arquitetura com a construção do Gabinete Português de Leitura, “um salão de estrutura metálica coberto por uma clarabóia de vidro” (DEL BRENNA, 1987, p. 41), projetado pelo engenheiro-arquiteto lisboeta Raphael da Silva e Castro e com obra iniciada em 1880. A proposta arquitetônica foi escolhida por motivo de sua execução consumir menos tempo e menos recursos financeiros, uma vez que a fundição de uma parte dos elementos de ferro poderia se realizar na Cidade. Mesmo assim, foi saudado não pelas “inovações tecnológicas que representava, mas pelo belo estilo manuelino de sua arquitetura e pela mensagem ideológica nele contida” (DEL BRENNA, 1987, p. 42), qual seja a contribuição de Portugal à descoberta de novos mundos. De resto, os chalets suburbanos, com seus lambrequins rendilhados em zinco e varandas com esteios em ferro fundido, e os quiosques, voltados à venda de mercadorias e miudezas diversas, ajudavam a entender melhor o papel desempenhado pelo gosto do pitoresco, e das novidades, no processo de assimilação das inovações técnicas e de introdução de materiais construtivos e decorativos de produção seriada na arquitetura tradicional brasileira (DEL BRENNA, 1987, p. 36).

Em Minas Gerais, assistia-se à construção de Belo Horizonte, a nova capital do Estado, planejada em gosto eclético sob o risco dos engenheiros Aarão Reis e Francisco Bicalho e inaugurada em 1897. A indústria chega às terras mineiras pelas ferrovias que se ramificam no Interior e, assim como se deu em São Paulo, pela ação dos imigrantes, majoritariamente de origem italiana, à procura de oportunidades de trabalho na nova terra. As cidades mineiras que, além de Belo Horizonte, mais cedo ingressam na modernidade, tais como Juiz de Fora e São João del-Rey, por serem pontos de cruzamento de ferrovias. Portanto, a estação ferroviária, novo programa urbano, era tida como símbolo da nova era em dois sentidos: lugar de exibição das máquinas ao grande público e de chegada e circulação dos produtos industrializados. Seu protótipo arquitetônico de vãos com aberturas altas, em ferro, na mesma proposta dos galpões industriais, é inusitado, não tendo modelo de referência na tradição construtiva (LOYER, apud SALGUEIRO, 1987, p. 113).

Seu melhor exemplo será a Estação de Entroncamento, inaugurada em 1895, em Belo Horizonte, em cuja construção foram empregados materiais importados. O Mercado Municipal da capital mineira, construção belga estruturada em armações de ferro, assim como as residências faustosas e as casas comerciais, estas com seus inúmeros detalhes construtivos executados com o mesmo material, já ostentavam “estilemas pré-fabricados de uma arquitetura difundida em catálogos” (SALGUEIRO, 1987, p. 120).

No Recife, desde a primeira metade do século XIX, já se conhecia o chalet, amplamente difundido nos subúrbios da Cidade e na zona rural canavieira e introdutor de novos materiais e tecnologias construtivas, tipologia arquitetônica esta graças “à presença significativa de cidadãos britânicos, quase sempre ligados às atividades de importação e exportação de açúcar e algodão” (GOMES, 1987, p. 183). Nos cinquenta anos posteriores, a economia pernambucana substituiu os métodos tradicionais de produção por outros de tecnologia industrial, no mais das vezes importados. No campo da arquitetura, as novas formas misturavam-se aos modelos pré-existentes, gerando exemplares arquitetônicos híbridos de desenho eclético. Residências com estrutura de ferro fundido eram leiloadas ou vendidas como produtos industrializados, adaptados aos rigores do clima tropical úmido. Marcaram a arquitetura metálica em Pernambuco a reconstrução do Teatro Santa Isabel3, consumido por um incêndio em 1869, o qual recebeu “uma estrutura de ferro para sustentar os camarotes e frisas e uma estrutura de coberta também em ferro constituída de tesouras do tipo Polonceau” (GOMES, 1987, p. 186), e a construção, em 1875, do Mercado de São José, de origem francesa. Com efeito, as duas construções, ecléticas, refletindo a nova tecnologia metálica, deslumbraram a comunidade recifense à época, marcando, ainda hoje, a paisagem do Centro da Capital pernambucana com suas refinadas arquiteturas.

A riqueza produzida pela borracha entre 1870 e 1912 e a tradição de contato direto da província do Grão-Pará com a corte, iniciada ainda no Brasil-Colônia com o comércio das “drogas do sertão”, propiciou, em Belém, a importação arraigada de elementos construtivos na construção civil: a importância que adquire o ferro, nesse período em Belém, deve-se a um conjunto de fatores ligados às particularidades do ciclo econômico da borracha: a necessidade de, rapidamente, adaptar a cidade à nova estrutura econômica não havendo mão de obra abundante e especializada; a influência direta de países europeus, importadores de borracha, sobre a região. O poder aquisitivo do Estado e da classe enriquecida permitia a escolha dos produtos mais sofisticados e de melhor qualidade em disponibilidade nos centros industrializados. Os produtos pré-fabricados em ferro preencheriam todas essas condições (DERENJI, 1987, p. 162).

Para esta autora, além do emprego nas obras locais de um sem-número de materiais de construção importados (tijolos, telhas, madeiramento de forro, aparelhos sanitários, revestimentos, etc.), “torna-se comum a importação de prédios inteiros, de pedra como a loja Paris N’América, ou em ferro: mercados, reservatórios de água, estações de trem, residências” (DERENJI, 1987, p. 151), o que faz da Capital paraense uma das cidades brasileiras em que a eclética arquitetura do ferro fundido mais se evidencia, não só pela grande quantidade de exemplares como também pela riqueza e diversidade de tipologias arquitetônicas. O maior destaque desse acervo, caracterizado pelos produtos industrializados provenientes das empresas Walter McFarlane & Sons (escocesa), Donon & Cie, Boudet e Guillot Pelletier (francesas), é o Mercado Ver-O-Peso, construído em 1901, com sua estrutura em pórticos de ferro e revestimento em escamas de zinco (sistema Vielle-Montagne).

Portanto, alta manifestação do Ecletismo, o qual, para Patetta (1987, p. 13), constituía “a cultura arquitetônica própria de uma classe burguesa que dava primazia ao conforto, amava o progresso, (…) amava as novidades e rebaixava a produção artística e arquitetônica ao nível da moda e do gosto”, a arquitetura do ferro, primeira expressão da arquitetura metálica no País, esteve firmemente associada às inovações impostas pelo surto de progresso industrial de natureza exógena, revelando a dependência do Brasil às nações hegemônicas do capitalismo da época, bem como, no nível dessa produção, a emergência do cliente consumidor, ávido por novidades que simbolizassem desenvolvimento, higiene e progresso material (CARVALHO NETO, SILVA NETO e DUARTE JUNIOR, p. 18, 2007).